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domingo, 24 de abril de 2011

Domingo ilegal



Todos entendem que a suspensão ao programa do Gugu foi de caráter punitivo, e não “censura prévia”, a despeito de o espírito de corpo de muitos jornalistas falar mais alto. E por uma simples razão: a liberdade de expressão evocada pelos jornalistas visa proteger a livre circulação de informações, e o que o SBT São Paulo exibiu nunca poderá ser considerado jornalismo nem expressão espontânea de idéias, mas um atentado ao público. Além do mais, neste contexto, esse direito constitucional sequer cuida da proteção de quem fala ou escreve, mas da proteção do público, como bem lembrou a magistrada que deferiu o pedido dos procuradores, antecipando-se ao vozerio da classe pretensamente ofendida:

“Não se trata aqui de discutir o retorno da censura ou tampouco embaraçar a plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo (...). Cuida-se, isto sim, de identificar quem a Constituição federal quer proteger quando assegura a livre manifestação da informação. (...) Intérpretes da Primeira Emenda à Constituição estadunidense, ‘os jornalistas e outros autores são protegidos da censura para que o público em geral possa ter acesso à informação de que necessita’.”

E, convenhamos, o prejuízo financeiro acarretado pela suspensão de um dia de Domingo Legal (lembrando que o canal não ficará fora do ar) pode equivaler-se a uma multa de poucos centavos para um infrator comum se considerarmos que o réu distribui centenas de milhares de reais em um único programa, como no “Show do Milhão”. Por isso acho que a decisão da juíza foi até muito branda em se tratando do SBT, podendo mesmo comprometer o caráter inibitório da pena. Sinto que a Justiça Federal só agiu porque não teve escolha, porque foi praticamente obrigada a tomar uma atitude. Com uma conduta imoral cada vez mais ousada, há anos o apresentador Gugu Liberato vem desafiando as autoridades, implorando por uma interdição, que já vem tarde.

Silvio e sua trupe aprontam descaradamente desde que me entendo por gente. Quantas vezes a produção do Programa do Ratinho foi denunciada por pagar para supostos casais trocarem coices no auditório? Silvio “Santo” foi um dos primeiros a condenar seu cupincha no caso da entrevista com falsos membros do PCC, mas quem há poucos dias escandalizou ao dar uma entrevista bombástica sobre sua doença terminal forjada? Lembram-se de quando Gugu apresentou o “crânio de um E.T.”, vulgo chupa-cabra, fato divulgado e discutido um domingo inteiro, que mais tarde descobriu-se não passar de uma arraia empalhada? E agora vêm nos dizer que o tal Gugu não tem antecedentes?

Numa dessas madrugadas fui surpreendido com o então conceituado (?) Hermano Henning alarmado com esta “notícia urgente”: nos EUA (Alabama, acho) um caminhão havia sido atingido por um trem. “Ninguém ficou ferido”, disse Henning. Porém, as imagens, antiqüíssimas, fazem parte do acervo dos “Vídeos mais Incríveis do Mundo!”, que bem podiam chamar-se de os mais velhos do mundo. Outras reproduções desse mesmo acervo, nas quais pessoas quase morreram ou por pouco não se machucaram gravemente, são aproveitadas como se fossem meras videocassetadas, para a platéia embasbacada estrebuchar-se de tanto rir. Também, o que esperar de um jornalismo cuja praxe é dublar a voz dos entrevistados a fim de mais facilmente distorcerem suas palavras, como na série de entrevistas dominicais com astros de Hollywood, entre os quais Schwarzenegger (“E aí, Gugu? Te adoro, cara!”)?

Pra piorar, quiseram nos fazer acreditar que as entrevistas eram ao vivo, com o Gugu simulando que fazia no ar as perguntas que os atores haviam respondido na gravação, como se fosse possível fazer dublagens em tempo real! Esse misto constrangedor de jornalismo e novela mexicana atinge vítimas também em outros canais. É triste assistir como o solene Augusto Xavier, âncora da Rede TV, a contragosto, tem de terminar suas chamadas diárias para as manchetes nacionais e internacionais: “....Não perca no ‘Jornal da TV’, logo depois de Pedro, O Escamoso”.

Apesar de achar correta, quae sera tamen, a decisão da Justiça de suspender o programa, considero-a uma medida paliativa, tão infrutífera como aqueles boicotes organizados por correntes infernais (“A atitude dos internautas com um mínimo de inteligência é muito simples: não assistir, ou evitar assistir a [sic] programação do S.B.T.”.) se não vier acompanhada de uma mudança na cabeça dos telespectadores (lobotomia?). O SBT é de fato repulsivo, mas seus telespectadores não estão nem aí para as críticas e denúncias contra seus abusos e uma suspensão só serve para aumentar sua “importância” e a expectativa em torno do próximo domingo. Quem discorda de seu conteúdo, há muito não vê aquele desacreditado canal e quem gosta mal pode esperar o fim da suspensão para engrossar a audiência e restituir ao apresentador tudo o que ele desembolsou. As pessoas "com um mínimo de inteligência" não precisam ser orientadas sobre quais programas são bons e quais não prestam. Ou seja, quem assistia ao programa do Gugu vai continuar assistindo e quem não assiste vai continuar não assistindo.

Afinal, por que querem "convencer as pessoas com um mínimo de inteligência" de que o Domingo Legal não presta? Para que mudem para Globo, Band etc.? Mesmo se adiantasse, seria pular do espeto e cair na brasa. Por que pensar que a mentalidade dos homens que fazem televisão é diferente daquelas que se deixam hipnotizar pela telinha estroboscópica? Com o surgimento de um público com o gosto mais apurado, digo, menos depravado, os próprios programas mudariam automaticamente (até com a entrada de profissionais dessa nova geração nas redes, naturalmente), sem nenhum tipo de movimento – ou extinguir-se-iam. E essa mudança de mentalidade (o fim da bestialização) é fenômeno que não acontecerá nesta geração nem na próxima, muito menos a base de decreto.

(Portal Comunique-se, setembro de 2003)

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ombudsboy@gmail.com

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Novos franquenstáins

Lia-se numa invejável revista de circulação nacional o título “Novos mouses”, anunciando os aparelhos então lançados. A despeito de “NOVOS MICE” ser o título correto, a repetição midiática do termo força-nos a concluir que “mouses” seja uma variação do próprio inglês –um neologismo para um novo produto. Ledo engano. Na língua inglesa, tanto o singular mouse (leia-se “maus”) quanto o plural “mice” (leia-se “mais”) são comuns aos pequeninos ratos e aos periféricos de computador. “Mouses” não é vocábulo inglês e muito menos português. A revista flexionou uma palavra estrangeira usando os critérios de nossa gramática! Algo como escrever “babby-dóis” em vez de “babby-dolls” ou “lobbys” em vez de “lobbies”. Poderia ter sido pior, claro, com o possessivo (apóstrofo “s”) no lugar da desinência, uso muito freqüente: TV’s, CD’s, mouse’s etc.

A mesma editora há muito adotou, à revelia, o gênero feminino para o grama (“uma grama de ouro”), seguindo “a regra do bom senso”. Será que a revista simplesmente aderiu à forma “mouses” por burrice ou porque julga que seus bem-informados leitores são demasiado simplórios e incapazes de assimilar certas nuances? Vejamos. As palavras estrangeiras incorporadas ao nosso idioma mantêm sua forma original (outdoor, kitsch, lingerie...). O plural delas também, por mais estranho que pareça. É o caso da italiana “paparazzi” (plural de paparazzo), da alemã “blitze” (plural de blitz), das latinas “quanta” e “campi” (plurais de quantum e campus) e da hebraica “Kibutzim” (plural de kibutz). Cadê a regra de ouro do bom senso? Embora esdrúxulas, todas fazem parte de nosso vocabulário. Por que mice ainda não? Sobretudo sendo esta mais comum que aquelas! Afinal, uma das primeiras (e para muitos, únicas) noções de inglês assimiladas na escola são os plurais irregulares “goose/geese”, tooth /teeth, foot/feet, man/men e mouse/mice.

De fato, mídia e jornalismo sempre subestimaram seu público, mas se a revista quisesse apenas evitar (conscientemente) o uso do “erudito” “mice”, não lhe bastaria fazer a tradução do termo (Novos “camundongos” ou Novos “ratinhos”)? Também não seria possível evitar-se o plural, reescrevendo a frase? Aliás, na forma “mouses”, a palavra teria de ser lida “môuses” ou “móuses”, pois é no inglês que o signo “o” teria (nesse caso) som de “a”. Como píer, jipe, caubói e picape ganharam nova grafia ao serem aportuguesadas (diferentemente de incorporadas), do mesmo modo mouse, por questão prosódica, teria de transformar-se em algo como mause (Novos mauses). Por tudo isso, o portinglês “mouses” não se justifica.

Como se sabe, esse erro não é exclusividade do invejável semanário. Está irremediavelmente disseminado e, cedo ou tarde, consagrar-se-á “pelo uso”, orgulhosamente corroborado pelos pais dos leigos e burros, que, para suplantar a concorrência, não podem limitar-se ao simples registro de neologismos (sic): “inicializar” em lugar de iniciar, “disponibilizado” em lugar de disponível ou à disposição, “prestatividade” em vez de solicitude ou simplesmente dedicação etc. Basta uma concordância ou regência manter-se errada na linguagem “viva”, ou ter precedente n’algum (?) clássico infalível revisitado, para todos assumirem e legalizarem a adoção. Infelizmente, parece aplicar-se aqui o mesmo princípio que haveria na propaganda massificada: a mentira repetida mil vezes tornar-se-ia verdade. Pelo que em tudo consta, um erro mil vezes repetido tornar-se-á uma regra gramatical. Há mesmo radicais que defendem a inexistência de “erro” em português, para os quais haveria apenas “variações regionais” (dialetos). Resta saber se na disputa por volumes cada vez mais “atualizados”, copiosos e caros, os dicionaristas, seus respectivos editores e outros em sua esteira não agem ao mesmo tempo como divulgadores e vulgarizadores, se enquanto se enriquecem não estão empobrecendo nosso idioma.

(Comunique-se, 2003)

sábado, 8 de agosto de 2009

Mundo Pequeno - II

Muitas vezes somos surpreendidos por nosso interlocutor expressando um pensamento que nós mesmos tivemos um segundo antes. Também acontece de ambos pronunciarmos a mesma frase simultaneamente! Geralmente, isso se deve a algum estímulo externo que muitas vezes não percebemos (uma palavra aleatória num comentário imediatamente anterior ou num cartaz próximo, um leve aroma etc.), mas que nossos sentidos e inconsciente registram e processam da mesma forma, fazendo iguais associações lógicas. Porque todos somos expostos aos mesmos estímulos e informações em tempo real, cada vez um maior número de pessoas chegam às mesmas idéias e conclusões ao mesmo tempo.

Portanto, mais do que pelo prazer da leitura e pela busca do conhecimento, é necessário mantermo-nos informados principalmente para evitar o desprazer de fazer algo que já fora feito antes. Não só porque somos empurrados pelo ritmo que a todos arrebata ou porque temos de acompanhar a pressa dos nossos dias – é preciso correr ou seremos rapidamente sobrepujados. Todos nós temos histórias para contar: publicitários, jornalistas, escritores, cientistas. Quando se trata de idéias, ninguém nunca estará a salvo de algumas encrencas, ou mesmo tragédias.

O lacônico título “É”, de uma nota de Veja, de 1972, é citado no Manual de Estilo da Editora Abril como “obra-prima” (pág. 22). Sinto muito, mas “prima”, nesse caso, poderá ter vários sentidos, menos “primeira”. Millôr Fernandes é um dos que contam que veio a descobri-lo em toda parte depois de jactar-se de ter dado o mesmo título a uma peça de teatro, que supunha original. Não é.

No mundo das charges, então, as idéias sempre se repetem, pois os temas dos autores são os mesmos, limitados aos fatos do dia, notadamente política, e datas comemorativas. Algumas charges chegam a ser de fato IDÊNTICAS, e não apenas semelhantes. De tão repetitivas, há muito deixei de acessar os maçantes sites que as divulgam diariamente. É claro que existem plágios nesse meio, mas no 12 de setembro, por exemplo, dezenas de charges eram da Estátua da Liberdade chorando, muitas assinadas por artistas mundialmente aclamados, como Mike Ramirez, Kirk Anderson e Rex Babin.

Duvido que não tivessem suas próprias idéias, ou que arriscariam suas reputações omitindo fontes. Outras charges estabeleciam paralelismo entre a “bravura” dos nova-iorquinos e a dos soldados que tomaram Ywo Jima. Novamente, além de admitirmos “plágio epidêmico”, teríamos de acreditar em telepatia, já que as tiragens dos jornais são praticamente simultâneas. Mais sensato é considerarmos mais uma incrível, porém natural, coincidência.

Eu buscava uma pista sobre o fenômeno (então inédito para mim, pelo menos) nos arquétipos do “inconsciente coletivo”, descrito por Jung, quando lembrei-me de quando Jack Palance citou um inventor italiano que imaginara fantásticas estações que gerariam um campo elétrico envolvendo todo o globo. Segundo entendi (peguei a matéria quase no fim), a eletricidade seria emitida em ondas, não em correntes, sem a necessidade de fios, bastando apenas ligar qualquer aparelho de qualquer lugar para que funcionasse, desde que no raio de alcance das ondas. Não sei de onde viria a energia para gerar os sinais, por quem seria bancada e quanto há de factível naquela empreitada, mas ela enseja uma alegoria eletrizante: e se as idéias também “viajassem” na forma de pulsos elétricos, passíveis de captação por quaisquer neurônios relativamente próximos, desde que “sintonizados” na mesma freqüência? Isso estaria também em sintonia com o contagiante pensamento de muitos filósofos, para quem as idéias estariam no ar, esperando para serem fisgadas: ou seriam como pulgas, “pulam de pessoa em pessoa, mas não picam todas”.

E, acrescento, quando picam, nem todos lhes dão a mesma importância ou sabem fazer uso delas.

Como é perceptível, Guglielmo Marconi morreu sem realizar sua utopia “socialista”, embora tenha criado o telégrafo sem fio, a antena e o rádio. Não sem controvérsias, claro! Na corrida pelo domínio da tecnologia e do conhecimento, cientistas e inventores, trabalhando isoladamente, chegam ao mesmo resultado de outros colegas ao mesmo tempo, mesmo antípodas enclausurados –e apenas um consegue a disputada patente. Além de a invenção do rádio, cito o caso do telefone. Relata Marcelo Duarte, do Guia dos Curiosos: “(Alexander Graham) Bell conseguiu a patente por ter chegado ao escritório de registro em Nova York duas horas antes que Elisha Gray, outro americano que também estava trabalhando num aparelho semelhante. Bell apareceu ao meio-dia e Gray, às 2 da tarde. Um não sabia do outro”.

O mesmo se deu com a teoria da Seleção Natural, tão consistente que permanece sem “mutações” desde que foi formulada por Charles Robert Darwin e Alfred Russel Wallace, no século 19. “(...) Chegou-lhe ao conhecimento [de Darwin] que outro cientista involuntariamente lhe ‘roubara’ a sensacional descoberta. A 18 de Junho de 1858, recebeu do seu amigo Alfred Russel Wallace um estudo original sobre a Evolução, acompanhado de uma carta em que lhe pedia uma sincera opinião a respeito da validade da teoria.

Wallace residia do outro lado do mundo, na Malásia. Ignorava que também Darwin concebera a idéia da origem das espécies e que trabalhara na sua concepção havia 20 anos. Assim, pois, vinha candidamente rogar a Darwin que o apresentasse como o criador da teoria evolucionista. Por fim acedeu em apresentar a teoria à Sociedade Lineana como trabalho simultâneo dele e de Wallace. Assim terminou uma das controvérsias mais notáveis entre cientistas” (in "Vidas de grandes cientistas" de Henry Thomas e Dana Lee Thomas). Apesar disso, quem já ouviu falar de A. R. Wallace? Nos limites da originalidade, a glória de um pode decretar a desgraça alheia.

(Comunique-se, 2003)

Mundo pequeno - I


No regulamento de um concurso realizado mês passado para o batismo da seção de cartas de uma nova revista o leitor é advertido:

(...) 10- Os ganhadores do concurso cultural declaram ser de sua autoria a sugestão enviada e que a mesma não constitui plágio de espécie alguma.


Existem quantas “espécies” de plágio? Como os “ganhadores” podem declarar qualquer coisa antes mesmo de eles próprios serem declarados como tais? Como alguém pode ter certeza que sua idéia é original? Caso haja outro nome coincidente, como o participante poderia PROVAR que não teve más intenções?

Todos estamos sujeitos a passar pela péssima experiência de ver explorada uma idéia idêntica à nossa, que imaginávamos única. É um drama semelhante ao do fotógrafo que, num segundo de distração ou estupidez, deixa escapar o momento mágico, singular, irrepetível, impossível de ser resgatado. E ninguém acreditaria se ele dissesse, nem saberia o quanto é frustrante, exceto quem já passou pela mesma situação. Dependendo do lance, é como acertar as dezenas da Mega-Sena acumulada e ter deixado de registrar o maldito cartão!

Quando é má-fé e quando é mera coincidência? Quando o artista teve uma inspiração legítima ou uma reminiscência involuntária? Nem sempre é fácil determinar o que é plágio e o que é lugar-comum (clichê ou fórmula de domínio público), trocadilho e paródia. Muitas vezes, separar o que é crime e o que é homenagem, cópia e traço cultural, autoplágio e estilo é tão difícil quanto separar inspiração e influência inconsciente.

O advento da Internet, além de facilitar tanto a prática da fraude intelectual quanto a sua identificação, também serviu para evidenciar que nem tudo que é igual é cópia. No artigo “O saber não ocupa o cyberspace” (que um amigo recortou do Pasquim) há uma grave acusação de plágio contra o cartunista Angeli. Na “original” Lula se contempla num lago e ordena: “FHC, quer sair daí!”. Dois meses depois, na Folha de S.Paulo, o presidente exclama: “Uia! O que o Fernando Henrique está fazendo ali?”. Assim como há semelhanças entre Lula e FHC, as charges são semelhantes, sim, igualmente sem graça, porém não são idênticas.

Alguém pode reivindicar a precedência de uma criação, mas não sua exclusividade, nunca o monopólio de nenhuma inspiração. E se tiver havido uma charge anterior à do Pasquim Brasil afora? A mídia nacional explorou muito as semelhanças entre este governo e o anterior, e lembro-me de ter visto várias charges em que Lula se espelha em FHC, coroadas há poucos dias com a declaração do ex-presidente de que Lula copiara sua cartilha de governo (outro plágio?). Quem pode garantir que não houve uma terceira charge igual e anterior? Isso não só é possível como altamente provável.

No mesmo artigo, o próprio delator admite essa possibilidade: “Outro dia o Ota me ligou querendo saber se alguém já tinha feito uma determinada piada. Já – falei e dei a ele duas idéias”. O episódio nos remete a muitos outros de natureza igualmente duvidosa, como este que saiu no “Observatório da Imprensa”: “PLÁGIO - Empresa pequena não tem vez no Conar”. Gente! ter uma grande idéia não dá direito a nenhum gênio de sair por aí acusando quem chegou atrasado à mesma conclusão. Também já fui, em muitas ocasiões, vítima de plagiadores e sei da indignação que isso nos desperta. É o crime mais hediondo praticado contra o direito autoral.

Mas a indignação pode nos induzir a precipitações e erros. Quando textos ou imagens são idênticos, não há o que discutir, mas nem sempre o assunto é tão claro e simples. Cuidado para não dar vexame nem, principalmente, cometer injustiça. Se já é ruim você descobrir que aquela idéia que você teve “não é sua”, imagine ainda ter de responder às acusações de plágio? Deixemos para tachar assim os casos que não deixam dúvidas, de cópias fiéis ao original, ou retocadas, como o flagrante que levou à demissão do jornalista Luiz Otávio deste Comunique-se, na sexta. Na incerteza, expresse seu orgulho por ter registrado uma idéia primeiro que o Angeli, ou outro ícone. Um pouco de humildade não faz mal a ninguém e cabe em qualquer espaço.

Lembro-me de um self-service patense que tinha como símbolo o Papa-Léguas. Logo atrás, veio correndo um disque-pizza utilizando o mesmo personagem, que foi imediatamente acusado de ter plagiado o restaurante. Ué, o personagem não mais pertencia à Time-Warner? Na “polêmica” sobre as charges, ambos os artistas se inspiraram no mito de Narciso, que não é criação de um nem de outro.

“Auto-estima”

Howard Chaykin é um quadrinista americano que sempre desenha o mesmo personagem, não importa se o protagonista é da revista American Flagg!, Black Kiss ou The Shadow. Os coadjuvantes de O Cavaleiro das Trevas (DC Comics) e de A Queda de Murdock (Marvel), ambos clássicos de Frank Miller, desempenham o mesmo papel nas sagas. Na segunda, Miller substitui Superman e o líder mutante pelo Capitão América e Bazuca, respectivamente. E quantos artistas recorrem ao mesmo tema em várias telas até se darem por satisfeitos?

A primeira vez que vi o termo autoplágio ele estava associado a artigo que um jornalista havia “reciclado” de outro mais antigo, também de sua autoria. Sempre que um jornalista ou escritor é pego requentando seus textos logo é considerado um autoplagiador, definição que sempre me soou estranha. Para mim, o autor está meramente sendo repetitivo. O humorista José Simão é um exemplo que me ocorre no jornalismo. Suas frases são repetitivas, e muitas piadas nem são de sua autoria, mas nunca vi ninguém acusá-lo de cometer plágio nem autoplágio, o que de fato não parece ser o caso, pois o público, além de esperar pelos bordões, tem conhecimento que boa parte do repertório é de fontes anônimas.

Veja esta reportagem do Estadão, sob o título ‘Esqueceram de Mim 2’ é PLÁGIO do número 1:

(...) Críticos e espectadores costumam reclamar que as seqüências quase sempre são inferiores ao original. O produtor e o diretor resolvem o problema realizando exatamente o mesmo filme. Acontecem [sic] apenas algumas mudanças para disfarçar.


Salvo exceções, não acho que essas continuações, independentemente se no cinema, na TV ou na literatura, possam ser consideradas “autoplágio”, ignomínia.
É claro que tiram parte do mérito do autor e do prestígio que sua criatividade desfrutaria junto aos fãs, mas é seu direito optar por um “upgrade” de sua obra sempre que achar necessário. Por que isso não seria permissível? Não há quem diga que o bom autor sempre escreve o mesmo livro? Mas também nada impede que o autor informe suas auto-referências nos casos em que o leitor possa se sentir traído. O que faz Chico Caruso diariamente senão nítidas colagens dos mesmos desenhos, igualmente com “algumas mudanças”, mas cuja intenção não é “disfarçar”? Muitas são a mesma charge, porém devidamente numeradas para esclarecer a “continuação”, e a colagem nesse caso é meramente uma técnica artística.

A meu ver, só se poderia falar em plágio ou autoplágio quando não restasse dúvida sobre a intenção de iludir, como o publicitário que vende a mesma arte ou campanha já utilizada para outro cliente. Ainda assim, continua sendo simplesmente “plágio”, uma reprodução não-autorizada. O neologismo autoplágio é ambíguo, impreciso, contraditório, suscita dúvidas e confusões. Clonagem é mais simples e adequado. Plágio é delito tipificado e falar em autoplágio é tão estapafúrdio quanto falar em “autofurto”. Dá a entender que o proprietário da obra intelectual seria ao mesmo tempo autor e réu no mesmo processo, quando na verdade seria simplesmente um caso onde a defesa e a acusação intimariam a mesma testemunha: o criador, não detentor dos direitos de reprodução.

Numa outra hipótese, se o repórter pegasse uma reportagem ou entrevista que ele fizera há muito anos e as reeditasse para que parecessem atuais, adulterando alguns nomes e enxertando novas circunstâncias, continuaria sendo simplesmente uma clonagem, uma FRAUDE como outra qualquer. Por que necessitar-se-ia de um neologismo para designar uma prática tão antiga?

(Comunique-se, 2003)