quarta-feira, 20 de abril de 2011
NOTA DO AUTOR
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Não sois homens, máquinas é que sois!

— Olá! Eu sou sua assistente CTBC Telecom. Por favor, fale uma das seguintes opções: Auxílio à Lista, Conta Telefônica, Informações Gerais...
Não havia, a opção desejada.
— Não entendi. Você está falando com um sistema informatizado. Fale uma das seguintes opções: Auxílio à Lis...
— Despertador!!
— Não entendi. Por favor, fale uma das seguintes opções: Auxílio à Lista, Conta Telefônica...
A cretina não parava de tagarelar, sem que houvesse a opção “Despertador”. Minha vontade era a de avançar no gravador, se pudesse. Eu estava exausto e já passava das duas e meia da manhã. E tentei o 134 por mais de uma hora! Fiquei com a cara pregada num monitor o dia inteiro e já estava quase na hora de levantar-me.Talvez por esse tipo de coisa que as pessoas quebram os orelhões, e não simplesmente por vandalismo, afinal...
— Saco!
— Não entendi. Este é um sistema informatizado. Fale uma das seguintes opções...
Quando finalmente consegui me controlar e pedir “Serviços”, senti-me como se voltasse à estaca zero.
— Certo! Fale uma das seguintes opções: Desbloqueio, Reclamações, Inscrição...
Depois de ditar meu telefone, “começando pelo DDD”, CPF e não sei mais o quê, usando a opção “Outros Serviços”, com as últimas energias que juntei, consegui a transferência para um atendente de carne e osso, que me pediu tudo de novo! Meu DDD, prefixo e número de telefone, CPF...
O atendente apresentou-se pelo nome. Em firmas grandes, o nome de telefonistas costuma ser fictício, por razões práticas e de sigilo. Assim, se a “Patrícia” deixa o emprego ou é transferida, é substituída por outra “Patrícia”.
Não sei se é o caso do nome pelo qual o atendente apresentou-se, mas de qualquer modo o preservarei, substituíndo-o por “Emerson”.
— Serviço de Despertador, Emerson, bom dia!
— Bom dia, eu queria que você me auxiliasse. Antigamente a gente falava com pessoas, mas agora é tudo via computador, complicou muito, você não acha?
— Senhor, a maneira correta é pelo 134.
— Sim, agora pode ser, mas a semana passada foi uma pessoa que me atendeu, e foi muito menos burocrático.
— Senhor, a maneira correta é pelo prefixo 134+1+a hora desejada.
— Mas agora que eu consegui falar com você, prefiro assim.
— Pois não, qual a hora que o senhor deseja?
— Cinco e trinta. Escuta, por que o serviço de Despetador estava dando só ocupado? — Perguntei amistosamente, demonstrando meu alívio.
— Não sei informá-lo senhor. Sua programação está registrada. Mais alguma coisa?
— Mas eu sempre ligo nesse horário e nunca deu ocupado.
_ Talvez é por que está congestionado.
— Não posso dar essa informação, senhor. Mais alguma coisa?
— É claro que está, olha aí de novo, o seu tom de voz! Estamos tendo um conflito e você está sendo irônico, falando baixinho, fingindo que não é com você, como se eu estivesse discutindo com as paredes. Vamos recapitular. Você disse que o sistema estava congestionado e eu achei um absurdo, pois não é horário de pico. Então, eu apelei e disse “você sabe que horas são, criatura?”, pois já é de madrugada, e você respondeu “senhor, não posso lhe dar essa informação”. Você não pode me dizer as horas, é isso? É ISSO?!
(Folha Patense, janeiro de 2002)
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domingo, 26 de setembro de 2010
Como se fosse ontem
Longe dali, na cidade de Caguas (Porto Rico), Victor Vega ouve um programa de análise política (que seria extinto logo depois) quando o locutor anuncia: "Vamos a interrumpir este programa porque ha empezado LA TERCERA GUERRA MUNDIAL”. A oficina onde Victor trabalhava liberou os funcionários mais cedo para acompanharem de casa as notícias da guerra. Fernando Artmann chegou atrasado ao escritório, em Detroit (EUA), e ao dar "bom dia" a recepcionista respondeu com um "bom por quê?". Ali também ninguém trabalhou nesse dia. Todos correram pra frente dos aparelhos de TV, onde muitos permaneceriam por 14 horas seguidas, assistindo à mesma cena.
Exatamente uma semana antes, Shadrack Diego e seus amigos estavam conversando sobre a última aula de História, sobre todas as guerras que o mundo já passou e no final acabaram falando de política. Chegaram à conclusão que estava tudo muito parado e que logo logo poderia acontecer algo grandioso na história do mundo. “No outro dia eu e meus amigos nos reencontramos”, conta o estudante de Brasília (DF), “e ficamos de cara porque a nossa ‘previsão’, uma semana antes, tinha se tornado realidade”.
Outra aula de historia começaria para a estudante Bela Schor quando a professora entrou na sala contando a calamidade. As aulas foram canceladas. No dia seguinte o colégio estava cheio de carros de polícia. O colégio, situado no Recife (PE), é judeu.
A mineira Sofia Paz estava numa escola norte-americana, em Nova York, quando os professores foram chamados para uma reunião. Meia hora depois, voltaram e levaram todos os estudantes para o gym, onde horas depois ela e seus colegas, um a um, seriam apanhados pelos pais. Nenhum dos estudantes sabia o que estava acontecendo até os pais falarem com eles. Quando Sofia saiu da escola já era tarde. Atravessaram o parque para pegar a irmã. Devido às muitas barreiras impostas pelo estado de sítio, foram pra casa a pé. Muitos colegas só chegaram em casa depois de 7 da noite. Heron Trierveiler também estava na escola. Chegou em casa, em Pomerode (SC), e viu na TV prédios em chamas. Nas primeiras horas o número estimado de vítimas era 30 mil.
Obedecendo ao telefonema da filha, Thomaz Magalhães ligou a TV e deu de cara com a cena de um avião atravessando um arranha-céu. Ficou acompanhando um tempo e saiu de casa. Na padaria, todos estavam perplexos. “Mas como era de se esperar, havia gente gostando, achando bom”, lamentou. Robson Faria, belo-horizontino hoje residente em Patos, estava no trabalho e quando chegou à sala do chefe (no caso, o próprio pai) a TV estava ligada. Logo que sentou para assistir, rolou a segunda colisão. “Foi ruim pelo número de pessoas que morreram, mas foi bom porque mexeu no ego dos norte-americanos”.
Em Porto Alegre, Jorge Schneider estava conectado ao Terra e ao mesmo tempo assistia à TV quando deram as primeiras chamadas. “Ninguém na internet ou na TV sabia o que estava acontecendo direito”, disse. “Por causa da neblina um avião teria colidido contra o WTC.” O carioca Luiz Carlos da Costa Pereira, porém, não conseguia acessar nenhum site por causa do congestionamento das linhas. Ligou para casa e seu irmão disse que aviões atacaram os prédios mais altos de Nova York. Luiz Carlos pensou: “Que país seria louco o suficiente para enviar CAÇAS para atacar os EUA?”.
Marcelo Peron estava na cantina da sua escola, em Garça (SP), comendo um pastelão de frango com catupiry da dona Sônia. Olhou pra TV e viu o avião estatelar-se contra a torre. Pensou que tinha sido acidente: “Como nego é cego, olha o tamanho do prédio e tem gente que ainda tromba”. Rod Ess e sua mãe ficaram pasmos com aquelas imagens. Mãe e filho olhavam um para o outro, e novamente para o 767 batendo no prédio. Ela é comissária e um dos aviões em que voa é justamente o 767. Ambos sabiam que não podia ser um acidente. Minutos depois, veio o segundo impacto.
A carioca Daniela Morais estava vendo TV com a irmã, em Londres. De repente, começa a passar esta legenda: "o WTC está sendo atacado. Mude para o canal X para ter mais notícias". Elas mudaram para a tal estação e em poucos segundos caiu a segunda torre. Daniela tinha que sair, mas a irmã tentou impedi-la, falando que podiam atacar Londres também, coisa e tal. Mas Daniela foi. No metrô, havia muitos policiais, mais do que o normal. Tinha telão mostrando os acontecimentos, um monte de gente parada, incrédula, e o policiamento dobrado olhando todos os lugares, buscando algo. “Caramba, parecia coisa de cinema!”
“Eu estava dormindo, minha mãe me acordou dizendo que estavam explodindo as torres gêmeas e eu perguntei se a guerra já tinha começado”, diz Fernanda Sonim, de Perdizes (SP). Outra que estava dormindo no momento do ataque era Juliana Blondie. Seu pai a acordou umas dez da manhã e disse: “Minha filha, atacaram o World Trade Center”. Ela respondeu “E eu com isso?” e voltou a dormir.
Academvs
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quarta-feira, 16 de junho de 2010
BATMAN personifica herói 'afegão'
“Não sei quais armas serão usadas na Terceira Guerra, mas a Quarta Guerra Mundial será com paus e pedras.”
Essa feliz frase de Albert Einstein (1879-1955), Nobel de física cuja teoria viabilizou a construção da bomba Atômica (Projeto Manhattan), apresenta-nos com autoridade científica e propriedade histórica ao palpitante século 21. Sabotagens virtuais? Terrorismo-catástrofe? Agentes microscópicos?
Passado pouco mais de um mês do desabamento do WTC, é possível recordar-me de que, ao ligar a TV em obediência a um telefonema, senti-me privilegiada testemunha ocular de uma passagem bíblica. De algum modo, a Cable News Network (CNN) estava transmitindo a segunda destruição da Torre de Babel, ao vivo! Não estou sendo ingênuo ou exagerado ao afirmar que, diante da confusão e hipnotizados pelo sensacionalismo televisivo, muitos tínhamos certeza de que assistíamos à extinção — incrivelmente rápida — de todos os Estados Unidos, quer pelo nítido sucesso da primeira fase de um suposto ataque mundial, quer por ser obra de Deus ou de bestas apocalípticas.
A repetição das imagens confundia-se com os acontecimentos que se repetiam. Afinal, a Torre Norte também estava soçobrando ou se tratava de um replay? Depois que o segundo 767 completou sua missão, outros ângulos do mesmo leviatã alado pareciam investidas de novas naus possuídas. Havia informações não confirmadas de que o Capitólio (o Congresso americano) havia sido atingido, e, a Casa Branca, abandonada às pressas. A escassez de imagens, se não anunciava o cerceamento de liberdades, hoje consumado, ajudava a sugerir um raio de destruição de todas as imediações. Tinha-se a impressão de haver restado na capital do Império apenas uma câmera (automática) em frente aos escombros do Pentágono. Aguardava-se com ansiedade o fim de NASA, Disneyworld, Hollywood, Microsoft, Instituto Smithsoniano e Coca-Cola nas próximas horas — e do país, nas próximas semanas. Teletipos orsonwellianos davam conta de um crescente número de aviões tripulados por cavaleiros invisíveis se dirigindo para seus alvos. No Brasil, emissoras ressuscitavam Nostradamus. Era o Juízo Final, e os EUA apenas o epicentro.Mas rapidamente nos acostumamos com a idéia de um atentado. Apesar da convicção de Washington contra o partido Taleban desde o início, não tive a mesma facilidade em focalizar de imediato a origem dos ataques: não pela dificuldade em reconhecer algum inimigo da América, é claro, mas, pelo contrário, por seu enorme contingente potencial: Coréia do Norte, China, Cuba, Síria, Irã, Líbia, Sudão e cartéis do crack, além de organizações políticas da extrema direita e grupos paramilitares dos próprios EUA... Todavia não descartei a possibilidade de os camicases serem japoneses legítimos pondo a termo seu próprio “Projeto Manhattan”.
Pelo menos, não comprei a antítese barata e maniqueísta que os líderes políticos Bush e Bin Laden vendem em suas aparições midiáticas (“ou vocês estão conosco ou contra nós” diz um, e “esses acontecimentos dividiram o mundo em dois campos, o campos dos fiéis e os campos dos infiéis”, diz o outro). Os dois são mais parecidos do que gostaríamos de admitir, evocando Deus, justiça e liberdade, enfatizando o honroso sacrifício de vidas (alheias) no dever de manter ou alcançar a paz. Do mesmo modo que as ações do Al-Qaeda confirmam as acusações dos americanos, os bombardeios em Cabul só corroboram as denúncias contra os EUA. Falando nisso, os militares americanos, aproveitando que renomeariam a operação “Justiça Infinita”, poderiam rebatizá-la, em vez de “Liberdade Duradoura”, de operação “Olho por Olho”, dada sua natureza retaliativa. A expressão “São ataques terroristas!”, de Bin Laden, e “Nossas exigências não foram atendidas e agora eles vão pagar por isso”, dito do presidente norte-americano, aceitam sem prejuízo a inversão da autoria. De determinadas frases, se publicadas isoladamente, é impossível identificar o orador, se George bi Laden ou Osama W. Bush.
E se o milionário saudita, “naturalizado” afegão, não tivesse negado a carreira de agente, teria tudo para se tornar um ícone anglo-americano. Rebeldes e justiceiros são populares nessas culturas, vide “Guerra nas Estrelas”, “Coração Valente” e “Jesse James”. O herói de “V de Vingança” inspira-se no soldado Guy Fawkes, o traidor número 1 da Inglaterra. Executado em 1606 em frente ao Parlamento que tentou explodir, foi o articulador da Conspiração da Pólvora.Mas o arquétipo no qual Bin Laden melhor se encaixa é Batman. Ambos os magnatas aplicam a herança dos pais no patrocínio de suas guerras particulares, impelidos por vingança e fanatismo. Armados até os dentes, Bruce Wayne e Osama bin Laden se refugiam em cavernas hi-tech, bases de suas atividades ilegais.
Em “O Cavaleiro das Trevas” (veja ilustrações), o Homem-Morcego é julgado e depois perseguido pelo governo Reagan. Bin Laden é produto da indústria americana, seja porque é síntese do que os americanos cultuam e exportam, seja porque foi treinado pela CIA. Aliás, quem garante que ele ainda não esteja a soldo, mesmo sem saber, daquela organização secreta, cuja existência sempre dependeu das intrigas que dissemina? Quantos bilhões de dólares realmente a CIA abocanhará do orçamento nacional após o êxito em Nova York?
(Folha Patense, outubro de 2001)
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quarta-feira, 12 de maio de 2010
Direito de resposta e dano moral
Veja a que nível um jornal pode descer: escancarar nada menos que uma página para um desconhecido (e suspeito) escrever o que bem entender contra seus denunciantes. Agora, os editores querem furtar-se da responsabilidade civil e criminal com dois truques: maquiaram a difamação com o pseudônimo de "Direito de Resposta" e fazem ingênuo uso da forjada alegação "Não nos responsabilizamos por artigos assinados", impressa em todas as edições, mas sem nenhum valor legal. Só está lá graças à confiança na ignorância dos outros, ou à própria. Já pensou se para a imunidade bastasse o rótulo mágico "não nos responsabilizamos..."? Ciente de meus direitos, pedi auxílio a instituições de regulamentação da ética jornalística e publicitária, há meses, sem obter nenhuma resposta. O incidente aconteceu em janeiro.
Em 24 de janeiro, a direção da Folha Patense informou-me que a matéria "Empresa clandestina faz concorrência desleal, impune e abertamente", na qual denunciava plágio de peça publicitária de minha autoria, gerou pedido de resposta, o qual eu só poderia ler no dia seguinte, depois de publicado no jornal (o que aconteceu em 26 de janeiro). O diretor de Redação disse ainda que ele próprio não havia lido o Direito de Resposta (DR), e "o advogado do proprietário da empresa denunciada o entregaria diretamente na gráfica". Diante de meu alarme a propósito daquela difamação anunciada, a redação argumentou que eu "deveria ter pensado nisso antes de ter começado o caso".
Ora, quem começou o caso foi quem copiou minha campanha publicitária. Que o DR seria reivindicado era mais que previsível, mas que o jornal o publicaria sem ler é inacreditável. O jornal sapecou o texto, confundindo Direito de Resposta com Direito de Retaliação. Questionado por que publicaria algo que certamente me prejudicaria, sem uma investigação sobre sua origem, o diretor da Folha, 20 anos de praia, disse que igualmente não investigou se a matéria que eu havia escrito era verdadeira (!). E quis me dar uma aula da Lei de Imprensa, imposta na época da ditadura.
Segundo ele, o Direito de Resposta teria de ser dado na mesma página e com o mesmo espaço reservado ao primeiro artigo. "Inclusive com chamada de primeira página", como havia sido feito no meu caso. Disse que sempre dá direito de resposta, e citou vários exemplos. Explicou que o DR é obrigatório "sempre que alguém se sinta prejudicado pelo jornal". Liguei para o diretor em sua casa para saber se o jornal realmente não investigaria as informações contidas no Direito de Resposta. Ele disse que não podia fazer nada a respeito, e que eu não poderia ler a matéria "porque o outro também não havia lido o meu artigo com antecedência"! E ainda reclamou que eu havia lhe causado um prejuízo de uma página por ter de publicar o tal direito. Falei que ele estava se arriscando a piorar as coisas, pois dependendo de uma calúnia, ou algo que o valha, eu reivindicaria réplica, ocupando mais uma preciosa página e entediando o leitor. A solução para isso foi rapidamente encontrada pelo diretor: ele publicaria a resposta e mais nada a respeito, ou seja, daria ao outro a palavra final, estando ele mentindo ou não.
Advertido de que publicar uma resposta às escuras talvez lhe trouxesse complicações, o diretor de Redação afirmou que o "Direito de Resposta é de responsabilidade de quem escreve, e não do jornal". A Folha Patense, receio, interpretou minha compreensível preocupação como sinal de culpa.
Quando vi o texto, feito por advogados, fiquei menos preocupado e vi que o objetivo principal do Direito de Resposta era antes amenizar o estrago feito à imagem da empresa clandestina do que revidar. Tanto é esse o objetivo que o título contém um eufemismo: "Quadro a Quadro repudia boatos". "Boatos"? Ora, imputação de crime é "calúnia", muito mais grave. Por que mediram as palavras? Para me poupar? Mas, em todo caso, a Folha errou, infelizmente:
1. O conteúdo de um Direito de Resposta só não é de responsabilidade do jornal quando este é dado pela Justiça, o que não foi o caso. E, como veremos, o único Direito de Resposta possível é este aqui, que, ironicamente, a Folha relutou em publicar.
2. É óbvio que o DR não é concedido em todos os casos. Qualquer calouro sabe disso. Só é concedido para o caso da divulgação de notícias "comprovadamente infundadas". Se não, para cada página policial, haveria outra página correspondente – para os bandidos. A redação da FP desconhece que o Direito de Resposta não é o mesmo que um debate literário que a gente vê na grande imprensa. O editor o dá quase sempre ao escritor criticado, pois é matéria jornalística e pode ser dado ou negado arbitrariamente, chamado de "réplica". Mas não existe um "Direito de Réplica" ou "Direito de Tréplica". O DR é uma sentença, e o dono da Folha posa de juiz, pré-julga e condena, sem direito a apelação. No mínimo, deixando a multidão decidir, como o próprio Pilatos.
3. O direito de quem comete um delito e é citado em qualquer órgão é exatamente o contrário: o "direito de permanecer calado". Na opinião de um nobre amigo, a atitude do jornal deveria ser a de submeter o texto a mim, e, se eu quisesse, o publicaria em minha página, rebatendo seu conteúdo, como, aliás, sempre fiz.
4. Admitindo o DR, o jornal, age como se ele próprio afirmasse, por sua conta e risco, que minha matéria é falsa e merecia retificação. Agora cabe ao jornal apresentar as provas do que publicou. E o diretor de Redação sequer pode dizer que foi por falta de aviso. Alertei a redação para o fato de que um DR subtende uma absolvição dada pelo jornal. Liguei para ele até o último instante, pedindo que apurasse a versão do Direito de Resposta, sem que me desse ouvidos, novamente dizendo-me para esperar a publicação no dia seguinte. Novamente não quis saber de provas, se da minha parte ou da outra. Se eu deveria ter pensado antes de escrever, a redação deveria ter pensado duas vezes mais, antes de publicar ambos os textos.
5. Diferentemente do DR, minha matéria foi entregue na manhã de quarta-feira, e o fechamento do jornal se dá na madrugada de sexta, havendo tempo suficiente para o jornal averiguar sua veracidade, até porque a empresa citada é vizinha da Folha e a Ama Propaganda (onde trabalho) fica quase em frente.
6. Se o jornal for incapaz de apurar os fatos ("Não é nossa função investigar", disseram), deveria ter deixado esse trabalho para a Justiça. Agora não vai ter de investigar de qualquer maneira, para se defender? O pior é que o jornal fez isso apenas "para não ficar mal com seu mais próximo e recente vizinho", segundo me relataram.
7. A princípio o diretor disse que não havia lido a matéria sobre a empresa clandestina, estopim desta crise, que eu havia deixado em sua mesa. Depois desmentiu, admitindo que a havia lido, percebido sua seriedade e que a publicou porque confiou em mim. Ora, o jornal confiou em mim tanto quanto eu nele.
8. Quem leu apenas o DR vai pensar que o denunciado rebateu satisfatoriamente todas as acusações. Não saberá que omitiu uma série de fatos que foram descritos – e talvez nem vá ter tempo de comparar um texto com o outro. Mesmo quem leu meu artigo não vai se lembrar de tudo, e a tendência é sempre acreditar em quem dá a palavra final e obteve o silêncio do outro que, subentende-se, calou-se. Mesmo que eu tenha ouvido "entendidos" me dizendo que o DR foi "muito vago" e "não respondeu nada", o contingente de pessoas que ficou perdido na cortina de fumaça e que me ligou para saber o que estava acontecendo não é nada desprezível.
9. Se o jornal admitiu ter errado em não investigar, nada o impediria de fazê-lo a qualquer momento, mesmo depois de ter publicado a minha página. Em vez disso preferiu errar de novo, publicando um texto sem ao menos lê-lo, dizendo que "a página 9 iria para a gráfica com o espaço em branco reservado para o Direito de Resposta", do que duvidei. Tudo isso mediante uma peculiar e suspeitíssima condição imposta pelo meu oponente: eu não poderia ler o texto antes.
Este é um caso de desrespeito gravíssimo, que encaminhei ao Sindicato dos Jornais, Revistas e Similares do Estado de Minas Gerais (Sindijori), à Associação Nacional de Jornais (ANJ), em Brasília, à ABI e à Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas).
(Observatório da Imprensa, 2002)
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sábado, 27 de março de 2010
Adeus, companheiro!

É com profundo pesar que registramos o falecimento do companheiro comerciário Euso José da Silva, aos 50 anos, ocorrido no último dia 12. Em 2008, Euso já sofria seu segundo infarto, mas só em dezembro passado seguiu a recomendação médica de submeter-se a uma cirurgia. Uma hora e meia após dar entrada no hospital para o exame pré-operatório, faleceu devido a um endema pulmonar. Ele deixou esposa e quatro filhos.
Euso exerceu mandato sindical desde 1989, como presidente do Sindicato dos Comerciários de Patos de Minas e Região (Sindec), afastando-se apenas entre 2001 e 2004, quando assumiu a Divisão do Trabalho na Prefeitura de Patos de Minas.
Durante sua presidência, o Sindec foi a primeira entidade no país a reintegrar um trabalhador com base na Convenção 158 da OIT. Logo em seguida, o Sindicato dos Bancários de Patos de Minas e Região conseguiria a reintegração do primeiro bancário.
Amava a política e gostava de estar perto das massas. Em nota oficial lamentando a morte de um de seus fundadores e ex-presidente, o PT de Patos de Minas ressaltou que Euso não defendia somente os interesses dos trabalhadores. No Sindec — o qual também ajudou a fundar — mantinha sempre as portas abertas a outras categorias menos assistidas. Exemplo disso é a ação popular que Euso preparava contra a Copasa (foto), pedindo a anulação das cláusulas abusivas do contrato celebrado com o município de Patos de Minas. Euso Silva e o vereador Pedro Lucas (PP) tiveram o apoio de mais de 11.000 patenses (ver Voz Bancária 548).
Atualmente se dedicava ao fortalecimento das comissões sindicais de conciliação e à luta pela redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, para geração de mais emprego. Uma de suas últimas conquistas foi a extensão da base do Sindec para outros 12 municípios.
"Apesar dos problemas de saúde, Euso continuou sua missão com grande empenho e profissionalismo", declarou Ivan Gomes, Secretário Geral do Sindicato. "Como dizia Euso, a luta continua!".
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Nota para a imprensa
Embaixatriz. Uma palavra belíssima. Talvez por isso, nos discursos e meios de comunicação, muito se tem dito e escrito sobre as escolhidas para serem as "embaixatrizes do Milho".
A associação que sempre fazem é devida às funções diplomáticas que as candidatas a Rainha do Milho têm de desempenhar.
Mas embaixatrizes NUNCA são escolhidas. Embaixatriz é a mulher do embaixador. Assim como nunca se elege a primeira-dama _ mas elege-se a presidenta ou a governadora _ as candidatas são as embaixadoras do Milho.
Só haveria embaixatrizes do Milho se houvesse embaixadores do Milho, título que não existe.
Manoel Almeida
ombudsboy@gmail.com
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Novos franquenstáins
A mesma editora há muito adotou, à revelia, o gênero feminino para o grama (“uma grama de ouro”), seguindo “a regra do bom senso”. Será que a revista simplesmente aderiu à forma “mouses” por burrice ou porque julga que seus bem-informados leitores são demasiado simplórios e incapazes de assimilar certas nuances? Vejamos. As palavras estrangeiras incorporadas ao nosso idioma mantêm sua forma original (outdoor, kitsch, lingerie...). O plural delas também, por mais estranho que pareça. É o caso da italiana “paparazzi” (plural de paparazzo), da alemã “blitze” (plural de blitz), das latinas “quanta” e “campi” (plurais de quantum e campus) e da hebraica “Kibutzim” (plural de kibutz). Cadê a regra de ouro do bom senso? Embora esdrúxulas, todas fazem parte de nosso vocabulário. Por que mice ainda não? Sobretudo sendo esta mais comum que aquelas! Afinal, uma das primeiras (e para muitos, únicas) noções de inglês assimiladas na escola são os plurais irregulares “goose/geese”, tooth /teeth, foot/feet, man/men e mouse/mice.
De fato, mídia e jornalismo sempre subestimaram seu público, mas se a revista quisesse apenas evitar (conscientemente) o uso do “erudito” “mice”, não lhe bastaria fazer a tradução do termo (Novos “camundongos” ou Novos “ratinhos”)? Também não seria possível evitar-se o plural, reescrevendo a frase? Aliás, na forma “mouses”, a palavra teria de ser lida “môuses” ou “móuses”, pois é no inglês que o signo “o” teria (nesse caso) som de “a”. Como píer, jipe, caubói e picape ganharam nova grafia ao serem aportuguesadas (diferentemente de incorporadas), do mesmo modo mouse, por questão prosódica, teria de transformar-se em algo como mause (Novos mauses). Por tudo isso, o portinglês “mouses” não se justifica.
Como se sabe, esse erro não é exclusividade do invejável semanário. Está irremediavelmente disseminado e, cedo ou tarde, consagrar-se-á “pelo uso”, orgulhosamente corroborado pelos pais dos leigos e burros, que, para suplantar a concorrência, não podem limitar-se ao simples registro de neologismos (sic): “inicializar” em lugar de iniciar, “disponibilizado” em lugar de disponível ou à disposição, “prestatividade” em vez de solicitude ou simplesmente dedicação etc. Basta uma concordância ou regência manter-se errada na linguagem “viva”, ou ter precedente n’algum (?) clássico infalível revisitado, para todos assumirem e legalizarem a adoção. Infelizmente, parece aplicar-se aqui o mesmo princípio que haveria na propaganda massificada: a mentira repetida mil vezes tornar-se-ia verdade. Pelo que em tudo consta, um erro mil vezes repetido tornar-se-á uma regra gramatical. Há mesmo radicais que defendem a inexistência de “erro” em português, para os quais haveria apenas “variações regionais” (dialetos). Resta saber se na disputa por volumes cada vez mais “atualizados”, copiosos e caros, os dicionaristas, seus respectivos editores e outros em sua esteira não agem ao mesmo tempo como divulgadores e vulgarizadores, se enquanto se enriquecem não estão empobrecendo nosso idioma.
(Comunique-se, 2003)
sábado, 8 de agosto de 2009
A lei do bom senso
Voltemo-nos para o céu e ouçamos o santo padre: “O estilo deve ser alto e claro, como as estrelas. Tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem” (Vieira). São comuns, no entanto, textos tão “elevados” que não os entendem os que sabem e nada têm a entender os que não sabem. Brocardos e até parágrafos inteiros em latim, alemão, espanhol e francês no mesmo artigo, desacompanhados de uma tradução, afloram como fungos na crosta estéril; recobrem o texto empolado e superficial; sepultam a idéia natimorta!
Fecundam, ainda, termos que parecem não fazer parte de nenhum idioma: “O critério da falsificabilidade, segundo o qual a discutibilidade (sic) é o critério da cientificidade...”. Se há algo que o rebuscamento revela, é incapacidade e despreparo, mais do que propriamente erudição. A virtude, pois, está no equilíbrio entre o rigor normativo e o discurso coloquial, sem cair em vulgarizações ou na perda de objetividade e de exatidão.
É desejável que um texto contribua para o enriquecimento vocabular do leitor, mas não é o caso de aberrações como “inicializar” (por iniciar), “imperguntado”, “disponibilizado” (o mesmo que disponível), “criterização”, “prestatividade”, “amadorístico” (em vez de amador), “falsificabilidade” etc.
E se o assunto ainda não virou caso de polícia, já se apelou para um decreto que pautasse a lógica, concisão e clareza nos despachos da esfera legislativa (o 2.954, de 29 de janeiro de 1999, art. 20). A idéia, de rara felicidade, bem poderia ser capítulo de um manual de técnicas de escrita para burocratas, nos moldes dos existentes para profissionais de imprensa (Folha, Estadão, O Globo e Zero Hora) e do Manual de Redação da Presidência da República. Que venham logo, pois, o “Manual de Redação e Estilo da Polícia Militar, Civil e Federal” e o “Manual de Redação, Ética e Português da OAB”.
(Jornal do D.A., 2005)
Mundo Pequeno - II
Portanto, mais do que pelo prazer da leitura e pela busca do conhecimento, é necessário mantermo-nos informados principalmente para evitar o desprazer de fazer algo que já fora feito antes. Não só porque somos empurrados pelo ritmo que a todos arrebata ou porque temos de acompanhar a pressa dos nossos dias – é preciso correr ou seremos rapidamente sobrepujados. Todos nós temos histórias para contar: publicitários, jornalistas, escritores, cientistas. Quando se trata de idéias, ninguém nunca estará a salvo de algumas encrencas, ou mesmo tragédias.
O lacônico título “É”, de uma nota de Veja, de 1972, é citado no Manual de Estilo da Editora Abril como “obra-prima” (pág. 22). Sinto muito, mas “prima”, nesse caso, poderá ter vários sentidos, menos “primeira”. Millôr Fernandes é um dos que contam que veio a descobri-lo em toda parte depois de jactar-se de ter dado o mesmo título a uma peça de teatro, que supunha original. Não é.
No mundo das charges, então, as idéias sempre se repetem, pois os temas dos autores são os mesmos, limitados aos fatos do dia, notadamente política, e datas comemorativas. Algumas charges chegam a ser de fato IDÊNTICAS, e não apenas semelhantes. De tão repetitivas, há muito deixei de acessar os maçantes sites que as divulgam diariamente. É claro que existem plágios nesse meio, mas no 12 de setembro, por exemplo, dezenas de charges eram da Estátua da Liberdade chorando, muitas assinadas por artistas mundialmente aclamados, como Mike Ramirez, Kirk Anderson e Rex Babin.
Duvido que não tivessem suas próprias idéias, ou que arriscariam suas reputações omitindo fontes. Outras charges estabeleciam paralelismo entre a “bravura” dos nova-iorquinos e a dos soldados que tomaram Ywo Jima. Novamente, além de admitirmos “plágio epidêmico”, teríamos de acreditar em telepatia, já que as tiragens dos jornais são praticamente simultâneas. Mais sensato é considerarmos mais uma incrível, porém natural, coincidência.
Eu buscava uma pista sobre o fenômeno (então inédito para mim, pelo menos) nos arquétipos do “inconsciente coletivo”, descrito por Jung, quando lembrei-me de quando Jack Palance citou um inventor italiano que imaginara fantásticas estações que gerariam um campo elétrico envolvendo todo o globo. Segundo entendi (peguei a matéria quase no fim), a eletricidade seria emitida em ondas, não em correntes, sem a necessidade de fios, bastando apenas ligar qualquer aparelho de qualquer lugar para que funcionasse, desde que no raio de alcance das ondas. Não sei de onde viria a energia para gerar os sinais, por quem seria bancada e quanto há de factível naquela empreitada, mas ela enseja uma alegoria eletrizante: e se as idéias também “viajassem” na forma de pulsos elétricos, passíveis de captação por quaisquer neurônios relativamente próximos, desde que “sintonizados” na mesma freqüência? Isso estaria também em sintonia com o contagiante pensamento de muitos filósofos, para quem as idéias estariam no ar, esperando para serem fisgadas: ou seriam como pulgas, “pulam de pessoa em pessoa, mas não picam todas”.
E, acrescento, quando picam, nem todos lhes dão a mesma importância ou sabem fazer uso delas.
Como é perceptível, Guglielmo Marconi morreu sem realizar sua utopia “socialista”, embora tenha criado o telégrafo sem fio, a antena e o rádio. Não sem controvérsias, claro! Na corrida pelo domínio da tecnologia e do conhecimento, cientistas e inventores, trabalhando isoladamente, chegam ao mesmo resultado de outros colegas ao mesmo tempo, mesmo antípodas enclausurados –e apenas um consegue a disputada patente. Além de a invenção do rádio, cito o caso do telefone. Relata Marcelo Duarte, do Guia dos Curiosos: “(Alexander Graham) Bell conseguiu a patente por ter chegado ao escritório de registro em Nova York duas horas antes que Elisha Gray, outro americano que também estava trabalhando num aparelho semelhante. Bell apareceu ao meio-dia e Gray, às 2 da tarde. Um não sabia do outro”.
O mesmo se deu com a teoria da Seleção Natural, tão consistente que permanece sem “mutações” desde que foi formulada por Charles Robert Darwin e Alfred Russel Wallace, no século 19. “(...) Chegou-lhe ao conhecimento [de Darwin] que outro cientista involuntariamente lhe ‘roubara’ a sensacional descoberta. A 18 de Junho de 1858, recebeu do seu amigo Alfred Russel Wallace um estudo original sobre a Evolução, acompanhado de uma carta em que lhe pedia uma sincera opinião a respeito da validade da teoria.
Wallace residia do outro lado do mundo, na Malásia. Ignorava que também Darwin concebera a idéia da origem das espécies e que trabalhara na sua concepção havia 20 anos. Assim, pois, vinha candidamente rogar a Darwin que o apresentasse como o criador da teoria evolucionista. Por fim acedeu em apresentar a teoria à Sociedade Lineana como trabalho simultâneo dele e de Wallace. Assim terminou uma das controvérsias mais notáveis entre cientistas” (in "Vidas de grandes cientistas" de Henry Thomas e Dana Lee Thomas). Apesar disso, quem já ouviu falar de A. R. Wallace? Nos limites da originalidade, a glória de um pode decretar a desgraça alheia.
(Comunique-se, 2003)
Mundo pequeno - I

(...) 10- Os ganhadores do concurso cultural declaram ser de sua autoria a sugestão enviada e que a mesma não constitui plágio de espécie alguma.
Existem quantas “espécies” de plágio? Como os “ganhadores” podem declarar qualquer coisa antes mesmo de eles próprios serem declarados como tais? Como alguém pode ter certeza que sua idéia é original? Caso haja outro nome coincidente, como o participante poderia PROVAR que não teve más intenções?
Todos estamos sujeitos a passar pela péssima experiência de ver explorada uma idéia idêntica à nossa, que imaginávamos única. É um drama semelhante ao do fotógrafo que, num segundo de distração ou estupidez, deixa escapar o momento mágico, singular, irrepetível, impossível de ser resgatado. E ninguém acreditaria se ele dissesse, nem saberia o quanto é frustrante, exceto quem já passou pela mesma situação. Dependendo do lance, é como acertar as dezenas da Mega-Sena acumulada e ter deixado de registrar o maldito cartão!
Quando é má-fé e quando é mera coincidência? Quando o artista teve uma inspiração legítima ou uma reminiscência involuntária? Nem sempre é fácil determinar o que é plágio e o que é lugar-comum (clichê ou fórmula de domínio público), trocadilho e paródia. Muitas vezes, separar o que é crime e o que é homenagem, cópia e traço cultural, autoplágio e estilo é tão difícil quanto separar inspiração e influência inconsciente.
O advento da Internet, além de facilitar tanto a prática da fraude intelectual quanto a sua identificação, também serviu para evidenciar que nem tudo que é igual é cópia. No artigo “O saber não ocupa o cyberspace” (que um amigo recortou do Pasquim) há uma grave acusação de plágio contra o cartunista Angeli. Na “original” Lula se contempla num lago e ordena: “FHC, quer sair daí!”. Dois meses depois, na Folha de S.Paulo, o presidente exclama: “Uia! O que o Fernando Henrique está fazendo ali?”. Assim como há semelhanças entre Lula e FHC, as charges são semelhantes, sim, igualmente sem graça, porém não são idênticas.
Alguém pode reivindicar a precedência de uma criação, mas não sua exclusividade, nunca o monopólio de nenhuma inspiração. E se tiver havido uma charge anterior à do Pasquim Brasil afora? A mídia nacional explorou muito as semelhanças entre este governo e o anterior, e lembro-me de ter visto várias charges em que Lula se espelha em FHC, coroadas há poucos dias com a declaração do ex-presidente de que Lula copiara sua cartilha de governo (outro plágio?). Quem pode garantir que não houve uma terceira charge igual e anterior? Isso não só é possível como altamente provável.
No mesmo artigo, o próprio delator admite essa possibilidade: “Outro dia o Ota me ligou querendo saber se alguém já tinha feito uma determinada piada. Já – falei e dei a ele duas idéias”. O episódio nos remete a muitos outros de natureza igualmente duvidosa, como este que saiu no “Observatório da Imprensa”: “PLÁGIO - Empresa pequena não tem vez no Conar”. Gente! ter uma grande idéia não dá direito a nenhum gênio de sair por aí acusando quem chegou atrasado à mesma conclusão. Também já fui, em muitas ocasiões, vítima de plagiadores e sei da indignação que isso nos desperta. É o crime mais hediondo praticado contra o direito autoral.
Mas a indignação pode nos induzir a precipitações e erros. Quando textos ou imagens são idênticos, não há o que discutir, mas nem sempre o assunto é tão claro e simples. Cuidado para não dar vexame nem, principalmente, cometer injustiça. Se já é ruim você descobrir que aquela idéia que você teve “não é sua”, imagine ainda ter de responder às acusações de plágio? Deixemos para tachar assim os casos que não deixam dúvidas, de cópias fiéis ao original, ou retocadas, como o flagrante que levou à demissão do jornalista Luiz Otávio deste Comunique-se, na sexta. Na incerteza, expresse seu orgulho por ter registrado uma idéia primeiro que o Angeli, ou outro ícone. Um pouco de humildade não faz mal a ninguém e cabe em qualquer espaço.
Lembro-me de um self-service patense que tinha como símbolo o Papa-Léguas. Logo atrás, veio correndo um disque-pizza utilizando o mesmo personagem, que foi imediatamente acusado de ter plagiado o restaurante. Ué, o personagem não mais pertencia à Time-Warner? Na “polêmica” sobre as charges, ambos os artistas se inspiraram no mito de Narciso, que não é criação de um nem de outro.
“Auto-estima”
Howard Chaykin é um quadrinista americano que sempre desenha o mesmo personagem, não importa se o protagonista é da revista American Flagg!, Black Kiss ou The Shadow. Os coadjuvantes de O Cavaleiro das Trevas (DC Comics) e de A Queda de Murdock (Marvel), ambos clássicos de Frank Miller, desempenham o mesmo papel nas sagas. Na segunda, Miller substitui Superman e o líder mutante pelo Capitão América e Bazuca, respectivamente. E quantos artistas recorrem ao mesmo tema em várias telas até se darem por satisfeitos?
A primeira vez que vi o termo autoplágio ele estava associado a artigo que um jornalista havia “reciclado” de outro mais antigo, também de sua autoria. Sempre que um jornalista ou escritor é pego requentando seus textos logo é considerado um autoplagiador, definição que sempre me soou estranha. Para mim, o autor está meramente sendo repetitivo. O humorista José Simão é um exemplo que me ocorre no jornalismo. Suas frases são repetitivas, e muitas piadas nem são de sua autoria, mas nunca vi ninguém acusá-lo de cometer plágio nem autoplágio, o que de fato não parece ser o caso, pois o público, além de esperar pelos bordões, tem conhecimento que boa parte do repertório é de fontes anônimas.
Veja esta reportagem do Estadão, sob o título ‘Esqueceram de Mim 2’ é PLÁGIO do número 1:
(...) Críticos e espectadores costumam reclamar que as seqüências quase sempre são inferiores ao original. O produtor e o diretor resolvem o problema realizando exatamente o mesmo filme. Acontecem [sic] apenas algumas mudanças para disfarçar.
Salvo exceções, não acho que essas continuações, independentemente se no cinema, na TV ou na literatura, possam ser consideradas “autoplágio”, ignomínia.
É claro que tiram parte do mérito do autor e do prestígio que sua criatividade desfrutaria junto aos fãs, mas é seu direito optar por um “upgrade” de sua obra sempre que achar necessário. Por que isso não seria permissível? Não há quem diga que o bom autor sempre escreve o mesmo livro? Mas também nada impede que o autor informe suas auto-referências nos casos em que o leitor possa se sentir traído. O que faz Chico Caruso diariamente senão nítidas colagens dos mesmos desenhos, igualmente com “algumas mudanças”, mas cuja intenção não é “disfarçar”? Muitas são a mesma charge, porém devidamente numeradas para esclarecer a “continuação”, e a colagem nesse caso é meramente uma técnica artística.
A meu ver, só se poderia falar em plágio ou autoplágio quando não restasse dúvida sobre a intenção de iludir, como o publicitário que vende a mesma arte ou campanha já utilizada para outro cliente. Ainda assim, continua sendo simplesmente “plágio”, uma reprodução não-autorizada. O neologismo autoplágio é ambíguo, impreciso, contraditório, suscita dúvidas e confusões. Clonagem é mais simples e adequado. Plágio é delito tipificado e falar em autoplágio é tão estapafúrdio quanto falar em “autofurto”. Dá a entender que o proprietário da obra intelectual seria ao mesmo tempo autor e réu no mesmo processo, quando na verdade seria simplesmente um caso onde a defesa e a acusação intimariam a mesma testemunha: o criador, não detentor dos direitos de reprodução.
Numa outra hipótese, se o repórter pegasse uma reportagem ou entrevista que ele fizera há muito anos e as reeditasse para que parecessem atuais, adulterando alguns nomes e enxertando novas circunstâncias, continuaria sendo simplesmente uma clonagem, uma FRAUDE como outra qualquer. Por que necessitar-se-ia de um neologismo para designar uma prática tão antiga?
(Comunique-se, 2003)
sábado, 27 de setembro de 2008
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Tanto o "Correio de Patos" quanto o "Novo Tempo" noticiaram que após o jogo não ter sido decidido no tempo normal, Uberlândia e Mogi-Mirim decidiram na "cobrança de penalidades". Mas empate não é falta, não cabendo cobrança de penalidade alguma. O ombudsboy procurou Edson Geraldo, do Sistema Clube, e o nosso Gegê explicou que, de fato, nesse caso, em vez de "penalidades" se diz "tiro livre direto", que é a expressão correta. O nosso Gegê recentemente foi reconhecido como o melhor repórter de campo em pesquisa realizada pelo "Correio de Patos". Alô, Gegê, "aquele abraco!".
(Revista Phatos, 1995)
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Divisor de águas
Obedecendo ao telefonema da filha, Thomaz Magalhães ligou a TV e deu de cara com a cena de um avião atravessando um arranha-céu. Ficou acompanhando um tempo e saiu de casa. Na padaria, todos estavam perplexos. “Mas como era de se esperar, havia gente gostando, achando bom”, lamentou. Rafael Malta Vesco ouviu tudo da cadeira do dentista, em Osasco, pela CBN. “Em casa, enquanto minha mãe chorava, meus amigos ligavam e davam gargalhadas histéricas. ‘Morte ao Imperialismo, Morte ao Imperialismo!’... Tenho que concordar: Morte ao Imperialismo!”. Leon Waldman, também de São Paulo, acordou bem na hora. “Dava pulos de alegria! Pulos!! Achei uma p* idéia usar os aviões. Não acreditei que ninguém tivesse pensado nisso antes!”
Leon não foi o único a não acreditar. Quando noutra parte de São Paulo a aula de matemática foi interrompida por um garoto de walkman gritando “ei, explodiram o Empire State!”, ninguém acreditou. O professor parou a aula e pegou o walkman. Após ficar uns 5 minutos ouvindo, deu a notícia: Foi um avião no WTC. A classe inteira ficou atordoada, mas continuava achando que era mentira. Um dos alunos era Samy Costa, que anos depois repetiria, inconformada: “Pobres inocentes pagaram pelas barbáries estadunidenses...”.
O sorocabano Rodrigo Lemos estava lá. Mais precisamente em Los Angeles, terminando de passar umas férias na casa do padrasto. Também vibrou quando viu as cenas. “Mas também depois só policiais nas ruas e tal... foi foda”. “Gostei mais de ter visto o Pentágono com 4 lados... quase tive um orgasmo!”, disse Diana Lavander, estudante do Objetivo, unidade Paulista. Ela conta que no colégio sempre teve muito punk e derivados, sem falar que sua classe era Humanas. Ela se lembra de um cara, que tava cabulando a aula, gritando. Todo mundo saiu correndo pra ver o que estava acontecendo. Uns amigos que estavam ouvindo walkman gritaram também. O povo saiu correndo pra cantina pra ver a televisão. “Começamos a gritar e ´forçamos’ a orientadora a liberar a saída. Todo mundo gritando na av. Paulista... foi lindo! Até chorei!”, recorda-se.
No Rio de Janeiro, a reação de Ana Vanessa Leal Sampaio foi mais comedida. Pegou uma fita de vídeo e gravou a transmissão dos atentados com um sorriso de um lado ao outro. Seu semblante mudou quando a mãe chega do veterinário dizendo que July, sua primeira gata, morrera de câncer. “Foi horrível! Mas gravei toda a matéria, ao vivo!”. Foi terrível saber que um monte de gente morreu no Onze de Setembro, diz Vanessa, “mas quantas pessoas morrem numa guerra?”, pergunta. Ela lembra que os EUA sempre entraram nas guerras de todo mundo, mataram quem podiam, quem queriam, e a potência nunca tinha sofrido retaliação. “O mundo é assim! Dolorosamente ou não, todos morrem”, filosofa. “‘Ninguém é tão velho a ponto de não poder viver mais um ano ou tão jovem que não possa morrer hoje’...”
Apesar de também ser contra a política dos EUA, nem por isso José Veellafranka, do Rio de Janeiro, deseja a morte dos norte-americanos. “Até porque havia brasileiros (e muitos outros estrangeiros) dentro das Torres Gêmeas”. José se lembra do dia em que um amigo entrou na sala de aula dizendo que os EUA haviam sofrido um ataque. Todos correram para a sala de vídeo e a primeira coisa que José viu foi uma pessoa balançando uma blusa vermelha nos andares acima de onde o avião se chocara. Pouco depois, tudo desabou.
Mariel Deak concorda com José. “Os americanos podem ser prepotentes, terem um presidente imbecil e tal, mas eles não merecem isso... não podemos esquecer que são pessoas, como eu e você, que vão ao trabalho e esperam chegar em casa e encontrar a família. Por mais mal que eles tenham feito ao mundo nos últimos anos, à Palestina, ao Japão na Segunda Guerra, ainda assim são seres humanos e não merecem morrer dessa forma. Uma dívida não anula a outra.”
Exatamente um ano depois, Marina Braga ouviria o hino dos EUA na escola a cada novo horário. O hino da bandeira também. Marina é de Belo Horizonte (MG), mas em 11 de setembro de 2002 estudava em Wisconsin. A professora de American literature chorava junto com os alunos, e Marina lá no meio quase chorando pela guerra no Afeganistão. O diretor do colégio fez um discurso terrível e ela teve vontade de voar no pescoço dele. Apesar de tudo, ficou sentida pelas vidas levadas, mas tão sentida quanto pelas vidas que foram e estão sendo levadas por Bush. “Isso acontece todos os dias, no Afeganistão, no Iraque etc., mas ninguém se comove”, concorda Renata Puetter Mattos, do Rio.
Simonne Fonseca tinha acabado de voltar dos EUA. Ela morava em Houston e depois de 9 anos tinha voltado para o Brasil. “Nunca agradeci tanto. Não agüento mais esse Bush – só faz merda”. Para ela, o verdadeiro inimigo número 1 da América e do mundo é George W. Bush, o presidente americano mais criticado da história. É crescente o número de pessoas que condenam o proveito político que Bush fez da tragédia, justificando medidas totalitaristas, cruéis e interesseiras. “Se os atentados não tivessem ocorrido, o governo do Júnior teria sido marcado apenas pela mediocridade”, afirma Mônica Aquino, de São Paulo.
Depois do Onze de Setembro, a rede britânica BBC quis saber a opinião da população de onze países sobre os Estados Unidos e seu atual presidente. No Brasil, a pesquisa ficou a cargo da Rede Globo e o resultado foi divulgado no Jornal Nacional: 65% dos brasileiros consideraram Bush filho uma ameaça maior que Bin Laden.
“É porque Bin Laden é um terrorista que faz o que faz por causa de tudo que os EUA fizeram o mundo passar em toda a História. O Bush, por outro lado, é terrorista que faz o que faz por controle, poder e dinheiro”, explica Ana Vanessa Leal Sampaio, do Rio de Janeiro. Tammam Daaboul, damasceno residente em São Paulo, arremata: “A comunidade árabe também odeia Bin Laden, mas odiamos muito mais quem o criou e o treinou: Bush pai e filho.”
(Revista Into - setembro de 2004)
