Manchete do "Patos Hoje" afirma que “patense vai à justiça provar que é filho de padre dono de uma fortuna”. De acordo com o ordenamento brasileiro, a morte faz cessar a personalidade jurídica e, simultaneamente, o exercício de quaisquer direitos (salvo o de ser sepultado dignamente). Logo, a expressão correta é “...FILHO DE PADRE QUE DEIXOU UMA FORTUNA”.
O sacerdote em questão deixou de ser proprietário ou possuidor no instante do óbito (agosto de 2010), quando se abriu o prazo de dez anos para os herdeiros requererem os bens.
"Patos Hoje" (janeiro de 2012)
quinta-feira, 22 de março de 2012
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Pérolas atômicas
Outra do Domingo Espetacular [Record]: "A capitulação do exército alemão, em 7 de maio de 45, pôs fim à Segunda Guerra Mundial", disse Celso Freitas. Na verdade, a guerra só acabou quatro meses depois, com a capitulação dos exército japonês.
A Globo não deixou por menos. Na semana seguinte, o Jornal Nacional relembra que na madrugada de 6 de agosto explodiu "a primeira bomba atômica da história". A rigor, a primeira explosão nuclear da história ocorreu no Deserto de Alamogordo (Los Alamos, Novo México), em 16 de julho de 1945.
A Globo não deixou por menos. Na semana seguinte, o Jornal Nacional relembra que na madrugada de 6 de agosto explodiu "a primeira bomba atômica da história". A rigor, a primeira explosão nuclear da história ocorreu no Deserto de Alamogordo (Los Alamos, Novo México), em 16 de julho de 1945.
Semana fantástica
[Ao relembrar os fatos mais marcantes da semana,] a estridente Glória Maria mostrou ignorar o fato de a semana terminar sábado e começar domingo
Domingo, ao encerrar o Fantástico (aquela constelação de estrelas decadentes), a apresentadora foi mais longe: desejou pra todo mundo “um excelente FIM DE SEMANA” (!?).
"Correio de Patos" (julho de 2000)
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Vinheta
A lupa, marca registrada da coluna, foi criada por Rubens Ferraz (o famoso Rubinho). Acima, a ilustração original feita em 1995 para a revista "Phatos".
terça-feira, 26 de julho de 2011
A bíblia do guru de Coromandel
Logo após a estreia da coluna do Ombudsboy, o “Correio de Patos” publicou “Sobre o pleonasmo”, crítica assinada por professor de língua inglesa e portuguesa da rede estadual de ensino:
Confesso que Jucere caminhava bem até que, ao final, resolveu pontuar os acertos do “filologista” (título conferido por ele e não por mim). "Como desenhista, nota dez para o talentoso jovem. Como filologista, nota zero vírgula nada...”, asseverou.
O motivo da ira: “LOGRADOUROS PÚBLICOS” (um dos pleonasmos de minha lista e que a honestíssima figura escondeu de seus leitores) era justamente o título de um de seus livros.
Reagi ao golpe baixo no mesmo nível e enderecei ao jornal naquela data (8/8/95) direito de resposta contendo, lamentavelmente, referências de cunho pessoal, reportando à época em que o professor era ridicularizado por alunos da Escola Estadual Prof. Zama Maciel.
Como o desagravo não fora publicado, preparei para a edição seguinte da revista “Phatos” o artigo “O cordão aumenta mais” – o qual também seria censurado. Além de comentar as críticas publicadas pelo “Correio”, o artigo revelava algumas fraudes perpetradas pelo professor, como o crime de plágio previsto no Código Penal. O documento cita as seguintes frases assinadas pelo professor no “Correio de Patos”:
Compare com trechos extraídos da coletânea A bíblia do caos*, do escritor e cartunista carioca Millôr Fernandes:
Há outras semelhanças entre o guru do Meyer e o de Coromandel, e o assunto poderia estender-se muito mais. Em breve Jucere voltaria à carga, desta vez a mando da “Folha Patense”, episódio que abordaremos em outra oportunidade.
ombudsboy@gmail.com
(Clique na imagem para ler o artigo)
Confesso que Jucere caminhava bem até que, ao final, resolveu pontuar os acertos do “filologista” (título conferido por ele e não por mim). "Como desenhista, nota dez para o talentoso jovem. Como filologista, nota zero vírgula nada...”, asseverou.
O motivo da ira: “LOGRADOUROS PÚBLICOS” (um dos pleonasmos de minha lista e que a honestíssima figura escondeu de seus leitores) era justamente o título de um de seus livros.
Reagi ao golpe baixo no mesmo nível e enderecei ao jornal naquela data (8/8/95) direito de resposta contendo, lamentavelmente, referências de cunho pessoal, reportando à época em que o professor era ridicularizado por alunos da Escola Estadual Prof. Zama Maciel.
Como o desagravo não fora publicado, preparei para a edição seguinte da revista “Phatos” o artigo “O cordão aumenta mais” – o qual também seria censurado. Além de comentar as críticas publicadas pelo “Correio”, o artigo revelava algumas fraudes perpetradas pelo professor, como o crime de plágio previsto no Código Penal. O documento cita as seguintes frases assinadas pelo professor no “Correio de Patos”:
“Todo dia de manhã a gente se levanta e sai de casa. Até chegar aquele dia terrível em que a gente sairá de casa sem se levantar.”
“Ser pobre não é crime, mas ajuda bastante a chegar lá.”
Compare com trechos extraídos da coletânea A bíblia do caos*, do escritor e cartunista carioca Millôr Fernandes:
“Todo dia de manhã a gente se levanta e sai de casa, se levanta e sai de casa, se levanta e sai de casa. Até o dia em que a gente sai de casa sem se levantar” (pág. 426);
“Ser pobre não é crime, mas ajuda a chegar lá” (pág. 16).
Há outras semelhanças entre o guru do Meyer e o de Coromandel, e o assunto poderia estender-se muito mais. Em breve Jucere voltaria à carga, desta vez a mando da “Folha Patense”, episódio que abordaremos em outra oportunidade.
(*) FERNANDES, Millôr. Millôr definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L&PM. 1994. 560p.
ombudsboy@gmail.com
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Ombudsgirls por 1 dia
quarta-feira, 27 de abril de 2011
"Mussarela de búfala fêmea"
ERRADO: “No ‘Aurélio’, ‘búfalo’ consta como substantivo masculino. Ou seja, mussarela de búfala deveria ser ‘mussarela de búfalo fêmea’.” (Folha de S.Paulo).
CERTO:
É tão errado escrever “mussarela de búfalo” quanto “mussarela de búfala fêmea”. Uma que o nome do queijo é com “oz” ou “ç”. Outra que, se de fato “búfalo” é comum de dois gêneros (acreditamos que sim, apesar de a palavra “búfala” encontrar-se na Larousse Cultural) é desnecessário o complemento “fêmea”, pelo menos quando tratar-se de queijo (evidentemente feito de leite), do mesmo modo que é desnecessário dizer que o ovo de avestruz é“ovo de avestruz fêmea”. Ou seja: MOZARELA DE BÚFALO ou MUÇARELA BUFALINA.
(Correio de Patos, junho de 2000)
ombudsboy@gmail.com
domingo, 24 de abril de 2011
Domingo ilegal

Todos entendem que a suspensão ao programa do Gugu foi de caráter punitivo, e não “censura prévia”, a despeito de o espírito de corpo de muitos jornalistas falar mais alto. E por uma simples razão: a liberdade de expressão evocada pelos jornalistas visa proteger a livre circulação de informações, e o que o SBT São Paulo exibiu nunca poderá ser considerado jornalismo nem expressão espontânea de idéias, mas um atentado ao público. Além do mais, neste contexto, esse direito constitucional sequer cuida da proteção de quem fala ou escreve, mas da proteção do público, como bem lembrou a magistrada que deferiu o pedido dos procuradores, antecipando-se ao vozerio da classe pretensamente ofendida:
“Não se trata aqui de discutir o retorno da censura ou tampouco embaraçar a plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo (...). Cuida-se, isto sim, de identificar quem a Constituição federal quer proteger quando assegura a livre manifestação da informação. (...) Intérpretes da Primeira Emenda à Constituição estadunidense, ‘os jornalistas e outros autores são protegidos da censura para que o público em geral possa ter acesso à informação de que necessita’.”
E, convenhamos, o prejuízo financeiro acarretado pela suspensão de um dia de Domingo Legal (lembrando que o canal não ficará fora do ar) pode equivaler-se a uma multa de poucos centavos para um infrator comum se considerarmos que o réu distribui centenas de milhares de reais em um único programa, como no “Show do Milhão”. Por isso acho que a decisão da juíza foi até muito branda em se tratando do SBT, podendo mesmo comprometer o caráter inibitório da pena. Sinto que a Justiça Federal só agiu porque não teve escolha, porque foi praticamente obrigada a tomar uma atitude. Com uma conduta imoral cada vez mais ousada, há anos o apresentador Gugu Liberato vem desafiando as autoridades, implorando por uma interdição, que já vem tarde.
Silvio e sua trupe aprontam descaradamente desde que me entendo por gente. Quantas vezes a produção do Programa do Ratinho foi denunciada por pagar para supostos casais trocarem coices no auditório? Silvio “Santo” foi um dos primeiros a condenar seu cupincha no caso da entrevista com falsos membros do PCC, mas quem há poucos dias escandalizou ao dar uma entrevista bombástica sobre sua doença terminal forjada? Lembram-se de quando Gugu apresentou o “crânio de um E.T.”, vulgo chupa-cabra, fato divulgado e discutido um domingo inteiro, que mais tarde descobriu-se não passar de uma arraia empalhada? E agora vêm nos dizer que o tal Gugu não tem antecedentes?
Numa dessas madrugadas fui surpreendido com o então conceituado (?) Hermano Henning alarmado com esta “notícia urgente”: nos EUA (Alabama, acho) um caminhão havia sido atingido por um trem. “Ninguém ficou ferido”, disse Henning. Porém, as imagens, antiqüíssimas, fazem parte do acervo dos “Vídeos mais Incríveis do Mundo!”, que bem podiam chamar-se de os mais velhos do mundo. Outras reproduções desse mesmo acervo, nas quais pessoas quase morreram ou por pouco não se machucaram gravemente, são aproveitadas como se fossem meras videocassetadas, para a platéia embasbacada estrebuchar-se de tanto rir. Também, o que esperar de um jornalismo cuja praxe é dublar a voz dos entrevistados a fim de mais facilmente distorcerem suas palavras, como na série de entrevistas dominicais com astros de Hollywood, entre os quais Schwarzenegger (“E aí, Gugu? Te adoro, cara!”)?
Pra piorar, quiseram nos fazer acreditar que as entrevistas eram ao vivo, com o Gugu simulando que fazia no ar as perguntas que os atores haviam respondido na gravação, como se fosse possível fazer dublagens em tempo real! Esse misto constrangedor de jornalismo e novela mexicana atinge vítimas também em outros canais. É triste assistir como o solene Augusto Xavier, âncora da Rede TV, a contragosto, tem de terminar suas chamadas diárias para as manchetes nacionais e internacionais: “....Não perca no ‘Jornal da TV’, logo depois de Pedro, O Escamoso”.
Apesar de achar correta, quae sera tamen, a decisão da Justiça de suspender o programa, considero-a uma medida paliativa, tão infrutífera como aqueles boicotes organizados por correntes infernais (“A atitude dos internautas com um mínimo de inteligência é muito simples: não assistir, ou evitar assistir a [sic] programação do S.B.T.”.) se não vier acompanhada de uma mudança na cabeça dos telespectadores (lobotomia?). O SBT é de fato repulsivo, mas seus telespectadores não estão nem aí para as críticas e denúncias contra seus abusos e uma suspensão só serve para aumentar sua “importância” e a expectativa em torno do próximo domingo. Quem discorda de seu conteúdo, há muito não vê aquele desacreditado canal e quem gosta mal pode esperar o fim da suspensão para engrossar a audiência e restituir ao apresentador tudo o que ele desembolsou. As pessoas "com um mínimo de inteligência" não precisam ser orientadas sobre quais programas são bons e quais não prestam. Ou seja, quem assistia ao programa do Gugu vai continuar assistindo e quem não assiste vai continuar não assistindo.
Afinal, por que querem "convencer as pessoas com um mínimo de inteligência" de que o Domingo Legal não presta? Para que mudem para Globo, Band etc.? Mesmo se adiantasse, seria pular do espeto e cair na brasa. Por que pensar que a mentalidade dos homens que fazem televisão é diferente daquelas que se deixam hipnotizar pela telinha estroboscópica? Com o surgimento de um público com o gosto mais apurado, digo, menos depravado, os próprios programas mudariam automaticamente (até com a entrada de profissionais dessa nova geração nas redes, naturalmente), sem nenhum tipo de movimento – ou extinguir-se-iam. E essa mudança de mentalidade (o fim da bestialização) é fenômeno que não acontecerá nesta geração nem na próxima, muito menos a base de decreto.
(Portal Comunique-se, setembro de 2003)
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sexta-feira, 22 de abril de 2011
Cartas
Patos de Minas, 4/7/2000
Manoel Almeida,
Em sua coluna (30 de junho) está escrito: "Paradoxalmente, foi a maneira dele salvar seus personagens, há muito ameaçados". O correto é: Paradoxalmente, foi a maneira de ele salvar seus personagens. Segundo a "Nova Gramática do Português Contemporâneo", de Celso Cunha e Lindley Cintra, publicada pela Nova Fronteira, "As preposições de e em contraem-se com o pronome reto da 3a pessoa ele(s), ela(s), dando, respectivamente, dele(s), dela(s) e nele(s), nela(s).
"A pasta é dele, e nela está o meu caderno.
"É de norma, porém, não haver a contração quando o pronome é sujeito; ou, melhor dizendo, quando as preposições de e em se relacionam com o infinitivo, e não com o pronome. Assim:
" Para que há de ele desconfiar de nós e maltratar-te?"(Machado de Assis)”.
Também está escrito na coluna de 30 de junho: "A sexta edição da série, por exemplo, foi entitulada" (...). O correto é intitulada, do verbo intitular.
Entretanto, o que chama a atenção em sua coluna não são erros como “entitulada”. São os dos jornais que você corrige, que pecam pela falta de lógica. Mesmo sem conhecimento profundo, você tem "faro". O estudo de gramática, creio, contribuiria muito.
Lívio Soares de Medeiros.
Terceiro Ano de Letras/Fepam
(Correio de Patos, julho de 2000)
quarta-feira, 20 de abril de 2011
NOTA DO AUTOR
Consideramos nossa obrigação corrigir nesta página erros cometidos na versão impressa, desde, claro, que tais correções não interfiram no contexto da crítica. Optamos, ainda, por eventualmente editar alguns trechos a fim de adequá-los ao estilo e à linguagem que utilizaríamos caso os mesmos fossem publicados hoje, sempre preservando o sentido original. É nosso projeto digitalizar o material impresso e disponibilizar os linques nos "posts" correspondentes, tal qual publicado originalmente.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Não sois homens, máquinas é que sois!

Como o despertador era a pilha, eu não poderia ter certeza de que a carga não acabaria exatamente enquanto eu dormia, e, por segurança, toda vez usava o serviço da Companhia Telefônica. Só que surpreendentemente a linha 134 estava ocupada. Restou-me o 0800. Nova surpresa: fui atendido por uma menina. Acordada até aquela hora! Na verdade, uma atendente eletrônica com voz de criança.
— Olá! Eu sou sua assistente CTBC Telecom. Por favor, fale uma das seguintes opções: Auxílio à Lista, Conta Telefônica, Informações Gerais...
Não havia, a opção desejada.
— Não entendi. Você está falando com um sistema informatizado. Fale uma das seguintes opções: Auxílio à Lis...
— Despertador!!
— Não entendi. Por favor, fale uma das seguintes opções: Auxílio à Lista, Conta Telefônica...
A cretina não parava de tagarelar, sem que houvesse a opção “Despertador”. Minha vontade era a de avançar no gravador, se pudesse. Eu estava exausto e já passava das duas e meia da manhã. E tentei o 134 por mais de uma hora! Fiquei com a cara pregada num monitor o dia inteiro e já estava quase na hora de levantar-me.Talvez por esse tipo de coisa que as pessoas quebram os orelhões, e não simplesmente por vandalismo, afinal...
— Saco!
— Não entendi. Este é um sistema informatizado. Fale uma das seguintes opções...
Quando finalmente consegui me controlar e pedir “Serviços”, senti-me como se voltasse à estaca zero.
— Certo! Fale uma das seguintes opções: Desbloqueio, Reclamações, Inscrição...
Depois de ditar meu telefone, “começando pelo DDD”, CPF e não sei mais o quê, usando a opção “Outros Serviços”, com as últimas energias que juntei, consegui a transferência para um atendente de carne e osso, que me pediu tudo de novo! Meu DDD, prefixo e número de telefone, CPF...
O atendente apresentou-se pelo nome. Em firmas grandes, o nome de telefonistas costuma ser fictício, por razões práticas e de sigilo. Assim, se a “Patrícia” deixa o emprego ou é transferida, é substituída por outra “Patrícia”.
Não sei se é o caso do nome pelo qual o atendente apresentou-se, mas de qualquer modo o preservarei, substituíndo-o por “Emerson”.
— Serviço de Despertador, Emerson, bom dia!
— Bom dia, eu queria que você me auxiliasse. Antigamente a gente falava com pessoas, mas agora é tudo via computador, complicou muito, você não acha?
— Senhor, a maneira correta é pelo 134.
— Sim, agora pode ser, mas a semana passada foi uma pessoa que me atendeu, e foi muito menos burocrático.
— Senhor, a maneira correta é pelo prefixo 134+1+a hora desejada.
— Mas agora que eu consegui falar com você, prefiro assim.
— Pois não, qual a hora que o senhor deseja?
— Cinco e trinta. Escuta, por que o serviço de Despetador estava dando só ocupado? — Perguntei amistosamente, demonstrando meu alívio.
— Não sei informá-lo senhor. Sua programação está registrada. Mais alguma coisa?
— Mas eu sempre ligo nesse horário e nunca deu ocupado.
_ Talvez é por que está congestionado.
— Olá! Eu sou sua assistente CTBC Telecom. Por favor, fale uma das seguintes opções: Auxílio à Lista, Conta Telefônica, Informações Gerais...
Não havia, a opção desejada.
— Não entendi. Você está falando com um sistema informatizado. Fale uma das seguintes opções: Auxílio à Lis...
— Despertador!!
— Não entendi. Por favor, fale uma das seguintes opções: Auxílio à Lista, Conta Telefônica...
A cretina não parava de tagarelar, sem que houvesse a opção “Despertador”. Minha vontade era a de avançar no gravador, se pudesse. Eu estava exausto e já passava das duas e meia da manhã. E tentei o 134 por mais de uma hora! Fiquei com a cara pregada num monitor o dia inteiro e já estava quase na hora de levantar-me.Talvez por esse tipo de coisa que as pessoas quebram os orelhões, e não simplesmente por vandalismo, afinal...
— Saco!
— Não entendi. Este é um sistema informatizado. Fale uma das seguintes opções...
Quando finalmente consegui me controlar e pedir “Serviços”, senti-me como se voltasse à estaca zero.
— Certo! Fale uma das seguintes opções: Desbloqueio, Reclamações, Inscrição...
Depois de ditar meu telefone, “começando pelo DDD”, CPF e não sei mais o quê, usando a opção “Outros Serviços”, com as últimas energias que juntei, consegui a transferência para um atendente de carne e osso, que me pediu tudo de novo! Meu DDD, prefixo e número de telefone, CPF...
O atendente apresentou-se pelo nome. Em firmas grandes, o nome de telefonistas costuma ser fictício, por razões práticas e de sigilo. Assim, se a “Patrícia” deixa o emprego ou é transferida, é substituída por outra “Patrícia”.
Não sei se é o caso do nome pelo qual o atendente apresentou-se, mas de qualquer modo o preservarei, substituíndo-o por “Emerson”.
— Serviço de Despertador, Emerson, bom dia!
— Bom dia, eu queria que você me auxiliasse. Antigamente a gente falava com pessoas, mas agora é tudo via computador, complicou muito, você não acha?
— Senhor, a maneira correta é pelo 134.
— Sim, agora pode ser, mas a semana passada foi uma pessoa que me atendeu, e foi muito menos burocrático.
— Senhor, a maneira correta é pelo prefixo 134+1+a hora desejada.
— Mas agora que eu consegui falar com você, prefiro assim.
— Pois não, qual a hora que o senhor deseja?
— Cinco e trinta. Escuta, por que o serviço de Despetador estava dando só ocupado? — Perguntei amistosamente, demonstrando meu alívio.
— Não sei informá-lo senhor. Sua programação está registrada. Mais alguma coisa?
— Mas eu sempre ligo nesse horário e nunca deu ocupado.
_ Talvez é por que está congestionado.
— Congestionado?! A essa hora?! — Eu disse, começando a me irritar de novo — Por acaso você sabe que horas são?!
— Não posso dar essa informação, senhor. Mais alguma coisa?
— Não posso dar essa informação, senhor. Mais alguma coisa?
— O QUÊ!! — aquilo foi a gota d’água. — Como assim “não posso dar essa informação”? Você está fazendo hora com a minha cara?
— Não, senhor.
— É claro que está, olha aí de novo, o seu tom de voz! Estamos tendo um conflito e você está sendo irônico, falando baixinho, fingindo que não é com você, como se eu estivesse discutindo com as paredes. Vamos recapitular. Você disse que o sistema estava congestionado e eu achei um absurdo, pois não é horário de pico. Então, eu apelei e disse “você sabe que horas são, criatura?”, pois já é de madrugada, e você respondeu “senhor, não posso lhe dar essa informação”. Você não pode me dizer as horas, é isso? É ISSO?!
— É claro que está, olha aí de novo, o seu tom de voz! Estamos tendo um conflito e você está sendo irônico, falando baixinho, fingindo que não é com você, como se eu estivesse discutindo com as paredes. Vamos recapitular. Você disse que o sistema estava congestionado e eu achei um absurdo, pois não é horário de pico. Então, eu apelei e disse “você sabe que horas são, criatura?”, pois já é de madrugada, e você respondeu “senhor, não posso lhe dar essa informação”. Você não pode me dizer as horas, é isso? É ISSO?!
— Senhor, este é o serviço de Despertador. Para saber a hora certa o número é 130.
(Folha Patense, janeiro de 2002)
ombudsboy@gmail.com
(Folha Patense, janeiro de 2002)
ombudsboy@gmail.com
domingo, 26 de setembro de 2010
Como se fosse ontem
Alessandra Beber estava em Mogi das Cruzes vendo TV quando de repente toca a vinheta do plantão da Globo. “Ih, alguém morreu!”, foi o que pensou. Em São Paulo, Thomaz Magalhães havia trabalhado até altas horas e acorda com um telefonema de sua filha. A voz dela estava estranha. Assustado, o jornalista já foi perguntando o que era, onde ela estava. Estava tudo bem, tranqüilizou-o, mas era para o pai ligar a TV. Em outra parte da capital, a estudante Janaina Viegas seguia no ônibus que a levaria pra casa quando começou a passar a notícia no rádio e um monte de pirralhinhos da quarta série começou a dizer que o mundo ia acabar.
Longe dali, na cidade de Caguas (Porto Rico), Victor Vega ouve um programa de análise política (que seria extinto logo depois) quando o locutor anuncia: "Vamos a interrumpir este programa porque ha empezado LA TERCERA GUERRA MUNDIAL”. A oficina onde Victor trabalhava liberou os funcionários mais cedo para acompanharem de casa as notícias da guerra. Fernando Artmann chegou atrasado ao escritório, em Detroit (EUA), e ao dar "bom dia" a recepcionista respondeu com um "bom por quê?". Ali também ninguém trabalhou nesse dia. Todos correram pra frente dos aparelhos de TV, onde muitos permaneceriam por 14 horas seguidas, assistindo à mesma cena.
Exatamente uma semana antes, Shadrack Diego e seus amigos estavam conversando sobre a última aula de História, sobre todas as guerras que o mundo já passou e no final acabaram falando de política. Chegaram à conclusão que estava tudo muito parado e que logo logo poderia acontecer algo grandioso na história do mundo. “No outro dia eu e meus amigos nos reencontramos”, conta o estudante de Brasília (DF), “e ficamos de cara porque a nossa ‘previsão’, uma semana antes, tinha se tornado realidade”.
Outra aula de historia começaria para a estudante Bela Schor quando a professora entrou na sala contando a calamidade. As aulas foram canceladas. No dia seguinte o colégio estava cheio de carros de polícia. O colégio, situado no Recife (PE), é judeu.
A mineira Sofia Paz estava numa escola norte-americana, em Nova York, quando os professores foram chamados para uma reunião. Meia hora depois, voltaram e levaram todos os estudantes para o gym, onde horas depois ela e seus colegas, um a um, seriam apanhados pelos pais. Nenhum dos estudantes sabia o que estava acontecendo até os pais falarem com eles. Quando Sofia saiu da escola já era tarde. Atravessaram o parque para pegar a irmã. Devido às muitas barreiras impostas pelo estado de sítio, foram pra casa a pé. Muitos colegas só chegaram em casa depois de 7 da noite. Heron Trierveiler também estava na escola. Chegou em casa, em Pomerode (SC), e viu na TV prédios em chamas. Nas primeiras horas o número estimado de vítimas era 30 mil.
Obedecendo ao telefonema da filha, Thomaz Magalhães ligou a TV e deu de cara com a cena de um avião atravessando um arranha-céu. Ficou acompanhando um tempo e saiu de casa. Na padaria, todos estavam perplexos. “Mas como era de se esperar, havia gente gostando, achando bom”, lamentou. Robson Faria, belo-horizontino hoje residente em Patos, estava no trabalho e quando chegou à sala do chefe (no caso, o próprio pai) a TV estava ligada. Logo que sentou para assistir, rolou a segunda colisão. “Foi ruim pelo número de pessoas que morreram, mas foi bom porque mexeu no ego dos norte-americanos”.
Em Porto Alegre, Jorge Schneider estava conectado ao Terra e ao mesmo tempo assistia à TV quando deram as primeiras chamadas. “Ninguém na internet ou na TV sabia o que estava acontecendo direito”, disse. “Por causa da neblina um avião teria colidido contra o WTC.” O carioca Luiz Carlos da Costa Pereira, porém, não conseguia acessar nenhum site por causa do congestionamento das linhas. Ligou para casa e seu irmão disse que aviões atacaram os prédios mais altos de Nova York. Luiz Carlos pensou: “Que país seria louco o suficiente para enviar CAÇAS para atacar os EUA?”.
Marcelo Peron estava na cantina da sua escola, em Garça (SP), comendo um pastelão de frango com catupiry da dona Sônia. Olhou pra TV e viu o avião estatelar-se contra a torre. Pensou que tinha sido acidente: “Como nego é cego, olha o tamanho do prédio e tem gente que ainda tromba”. Rod Ess e sua mãe ficaram pasmos com aquelas imagens. Mãe e filho olhavam um para o outro, e novamente para o 767 batendo no prédio. Ela é comissária e um dos aviões em que voa é justamente o 767. Ambos sabiam que não podia ser um acidente. Minutos depois, veio o segundo impacto.
A carioca Daniela Morais estava vendo TV com a irmã, em Londres. De repente, começa a passar esta legenda: "o WTC está sendo atacado. Mude para o canal X para ter mais notícias". Elas mudaram para a tal estação e em poucos segundos caiu a segunda torre. Daniela tinha que sair, mas a irmã tentou impedi-la, falando que podiam atacar Londres também, coisa e tal. Mas Daniela foi. No metrô, havia muitos policiais, mais do que o normal. Tinha telão mostrando os acontecimentos, um monte de gente parada, incrédula, e o policiamento dobrado olhando todos os lugares, buscando algo. “Caramba, parecia coisa de cinema!”
“Eu estava dormindo, minha mãe me acordou dizendo que estavam explodindo as torres gêmeas e eu perguntei se a guerra já tinha começado”, diz Fernanda Sonim, de Perdizes (SP). Outra que estava dormindo no momento do ataque era Juliana Blondie. Seu pai a acordou umas dez da manhã e disse: “Minha filha, atacaram o World Trade Center”. Ela respondeu “E eu com isso?” e voltou a dormir.
Academvs
ombudsboy@gmail.com
Longe dali, na cidade de Caguas (Porto Rico), Victor Vega ouve um programa de análise política (que seria extinto logo depois) quando o locutor anuncia: "Vamos a interrumpir este programa porque ha empezado LA TERCERA GUERRA MUNDIAL”. A oficina onde Victor trabalhava liberou os funcionários mais cedo para acompanharem de casa as notícias da guerra. Fernando Artmann chegou atrasado ao escritório, em Detroit (EUA), e ao dar "bom dia" a recepcionista respondeu com um "bom por quê?". Ali também ninguém trabalhou nesse dia. Todos correram pra frente dos aparelhos de TV, onde muitos permaneceriam por 14 horas seguidas, assistindo à mesma cena.
Exatamente uma semana antes, Shadrack Diego e seus amigos estavam conversando sobre a última aula de História, sobre todas as guerras que o mundo já passou e no final acabaram falando de política. Chegaram à conclusão que estava tudo muito parado e que logo logo poderia acontecer algo grandioso na história do mundo. “No outro dia eu e meus amigos nos reencontramos”, conta o estudante de Brasília (DF), “e ficamos de cara porque a nossa ‘previsão’, uma semana antes, tinha se tornado realidade”.
Outra aula de historia começaria para a estudante Bela Schor quando a professora entrou na sala contando a calamidade. As aulas foram canceladas. No dia seguinte o colégio estava cheio de carros de polícia. O colégio, situado no Recife (PE), é judeu.
A mineira Sofia Paz estava numa escola norte-americana, em Nova York, quando os professores foram chamados para uma reunião. Meia hora depois, voltaram e levaram todos os estudantes para o gym, onde horas depois ela e seus colegas, um a um, seriam apanhados pelos pais. Nenhum dos estudantes sabia o que estava acontecendo até os pais falarem com eles. Quando Sofia saiu da escola já era tarde. Atravessaram o parque para pegar a irmã. Devido às muitas barreiras impostas pelo estado de sítio, foram pra casa a pé. Muitos colegas só chegaram em casa depois de 7 da noite. Heron Trierveiler também estava na escola. Chegou em casa, em Pomerode (SC), e viu na TV prédios em chamas. Nas primeiras horas o número estimado de vítimas era 30 mil.
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Obedecendo ao telefonema da filha, Thomaz Magalhães ligou a TV e deu de cara com a cena de um avião atravessando um arranha-céu. Ficou acompanhando um tempo e saiu de casa. Na padaria, todos estavam perplexos. “Mas como era de se esperar, havia gente gostando, achando bom”, lamentou. Robson Faria, belo-horizontino hoje residente em Patos, estava no trabalho e quando chegou à sala do chefe (no caso, o próprio pai) a TV estava ligada. Logo que sentou para assistir, rolou a segunda colisão. “Foi ruim pelo número de pessoas que morreram, mas foi bom porque mexeu no ego dos norte-americanos”.
Em Porto Alegre, Jorge Schneider estava conectado ao Terra e ao mesmo tempo assistia à TV quando deram as primeiras chamadas. “Ninguém na internet ou na TV sabia o que estava acontecendo direito”, disse. “Por causa da neblina um avião teria colidido contra o WTC.” O carioca Luiz Carlos da Costa Pereira, porém, não conseguia acessar nenhum site por causa do congestionamento das linhas. Ligou para casa e seu irmão disse que aviões atacaram os prédios mais altos de Nova York. Luiz Carlos pensou: “Que país seria louco o suficiente para enviar CAÇAS para atacar os EUA?”.
Marcelo Peron estava na cantina da sua escola, em Garça (SP), comendo um pastelão de frango com catupiry da dona Sônia. Olhou pra TV e viu o avião estatelar-se contra a torre. Pensou que tinha sido acidente: “Como nego é cego, olha o tamanho do prédio e tem gente que ainda tromba”. Rod Ess e sua mãe ficaram pasmos com aquelas imagens. Mãe e filho olhavam um para o outro, e novamente para o 767 batendo no prédio. Ela é comissária e um dos aviões em que voa é justamente o 767. Ambos sabiam que não podia ser um acidente. Minutos depois, veio o segundo impacto.
A carioca Daniela Morais estava vendo TV com a irmã, em Londres. De repente, começa a passar esta legenda: "o WTC está sendo atacado. Mude para o canal X para ter mais notícias". Elas mudaram para a tal estação e em poucos segundos caiu a segunda torre. Daniela tinha que sair, mas a irmã tentou impedi-la, falando que podiam atacar Londres também, coisa e tal. Mas Daniela foi. No metrô, havia muitos policiais, mais do que o normal. Tinha telão mostrando os acontecimentos, um monte de gente parada, incrédula, e o policiamento dobrado olhando todos os lugares, buscando algo. “Caramba, parecia coisa de cinema!”
“Eu estava dormindo, minha mãe me acordou dizendo que estavam explodindo as torres gêmeas e eu perguntei se a guerra já tinha começado”, diz Fernanda Sonim, de Perdizes (SP). Outra que estava dormindo no momento do ataque era Juliana Blondie. Seu pai a acordou umas dez da manhã e disse: “Minha filha, atacaram o World Trade Center”. Ela respondeu “E eu com isso?” e voltou a dormir.
Academvs
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quarta-feira, 16 de junho de 2010
BATMAN personifica herói 'afegão'
“Não sei quais armas serão usadas na Terceira Guerra, mas a Quarta Guerra Mundial será com paus e pedras.”
Essa feliz frase de Albert Einstein (1879-1955), Nobel de física cuja teoria viabilizou a construção da bomba Atômica (Projeto Manhattan), apresenta-nos com autoridade científica e propriedade histórica ao palpitante século 21. Sabotagens virtuais? Terrorismo-catástrofe? Agentes microscópicos?
Passado pouco mais de um mês do desabamento do WTC, é possível recordar-me de que, ao ligar a TV em obediência a um telefonema, senti-me privilegiada testemunha ocular de uma passagem bíblica. De algum modo, a Cable News Network (CNN) estava transmitindo a segunda destruição da Torre de Babel, ao vivo! Não estou sendo ingênuo ou exagerado ao afirmar que, diante da confusão e hipnotizados pelo sensacionalismo televisivo, muitos tínhamos certeza de que assistíamos à extinção — incrivelmente rápida — de todos os Estados Unidos, quer pelo nítido sucesso da primeira fase de um suposto ataque mundial, quer por ser obra de Deus ou de bestas apocalípticas.
A repetição das imagens confundia-se com os acontecimentos que se repetiam. Afinal, a Torre Norte também estava soçobrando ou se tratava de um replay? Depois que o segundo 767 completou sua missão, outros ângulos do mesmo leviatã alado pareciam investidas de novas naus possuídas. Havia informações não confirmadas de que o Capitólio (o Congresso americano) havia sido atingido, e, a Casa Branca, abandonada às pressas. A escassez de imagens, se não anunciava o cerceamento de liberdades, hoje consumado, ajudava a sugerir um raio de destruição de todas as imediações. Tinha-se a impressão de haver restado na capital do Império apenas uma câmera (automática) em frente aos escombros do Pentágono. Aguardava-se com ansiedade o fim de NASA, Disneyworld, Hollywood, Microsoft, Instituto Smithsoniano e Coca-Cola nas próximas horas — e do país, nas próximas semanas. Teletipos orsonwellianos davam conta de um crescente número de aviões tripulados por cavaleiros invisíveis se dirigindo para seus alvos. No Brasil, emissoras ressuscitavam Nostradamus. Era o Juízo Final, e os EUA apenas o epicentro.Mas rapidamente nos acostumamos com a idéia de um atentado. Apesar da convicção de Washington contra o partido Taleban desde o início, não tive a mesma facilidade em focalizar de imediato a origem dos ataques: não pela dificuldade em reconhecer algum inimigo da América, é claro, mas, pelo contrário, por seu enorme contingente potencial: Coréia do Norte, China, Cuba, Síria, Irã, Líbia, Sudão e cartéis do crack, além de organizações políticas da extrema direita e grupos paramilitares dos próprios EUA... Todavia não descartei a possibilidade de os camicases serem japoneses legítimos pondo a termo seu próprio “Projeto Manhattan”.
Pelo menos, não comprei a antítese barata e maniqueísta que os líderes políticos Bush e Bin Laden vendem em suas aparições midiáticas (“ou vocês estão conosco ou contra nós” diz um, e “esses acontecimentos dividiram o mundo em dois campos, o campos dos fiéis e os campos dos infiéis”, diz o outro). Os dois são mais parecidos do que gostaríamos de admitir, evocando Deus, justiça e liberdade, enfatizando o honroso sacrifício de vidas (alheias) no dever de manter ou alcançar a paz. Do mesmo modo que as ações do Al-Qaeda confirmam as acusações dos americanos, os bombardeios em Cabul só corroboram as denúncias contra os EUA. Falando nisso, os militares americanos, aproveitando que renomeariam a operação “Justiça Infinita”, poderiam rebatizá-la, em vez de “Liberdade Duradoura”, de operação “Olho por Olho”, dada sua natureza retaliativa. A expressão “São ataques terroristas!”, de Bin Laden, e “Nossas exigências não foram atendidas e agora eles vão pagar por isso”, dito do presidente norte-americano, aceitam sem prejuízo a inversão da autoria. De determinadas frases, se publicadas isoladamente, é impossível identificar o orador, se George bi Laden ou Osama W. Bush.
E se o milionário saudita, “naturalizado” afegão, não tivesse negado a carreira de agente, teria tudo para se tornar um ícone anglo-americano. Rebeldes e justiceiros são populares nessas culturas, vide “Guerra nas Estrelas”, “Coração Valente” e “Jesse James”. O herói de “V de Vingança” inspira-se no soldado Guy Fawkes, o traidor número 1 da Inglaterra. Executado em 1606 em frente ao Parlamento que tentou explodir, foi o articulador da Conspiração da Pólvora.Mas o arquétipo no qual Bin Laden melhor se encaixa é Batman. Ambos os magnatas aplicam a herança dos pais no patrocínio de suas guerras particulares, impelidos por vingança e fanatismo. Armados até os dentes, Bruce Wayne e Osama bin Laden se refugiam em cavernas hi-tech, bases de suas atividades ilegais.
Em “O Cavaleiro das Trevas” (veja ilustrações), o Homem-Morcego é julgado e depois perseguido pelo governo Reagan. Bin Laden é produto da indústria americana, seja porque é síntese do que os americanos cultuam e exportam, seja porque foi treinado pela CIA. Aliás, quem garante que ele ainda não esteja a soldo, mesmo sem saber, daquela organização secreta, cuja existência sempre dependeu das intrigas que dissemina? Quantos bilhões de dólares realmente a CIA abocanhará do orçamento nacional após o êxito em Nova York?
(Folha Patense, outubro de 2001)
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